Rogério Faria Tavares – Da Academia Mineira de Letras e do Pen Clube do Brasil. Sócio correspondente da Academia Carioca de Letras.

 

Boa tarde a todos. É um privilégio ocupar a tribuna da Academia Carioca de Letras, em que fui empossado, no mês de abril de 2016, como sócio correspondente em Minas Gerais. Cumprimento primeiramente o presidente Ricardo Cravo Albin, fraterno amigo, anfitrião que me acolhe com tanta hospitalidade, liderança entusiasmada e criativa, diligente timoneiro da Casa de José de Anchieta. Cumprimento o confrade Sérgio Fonta, cujo apoio foi imprescindível à realização desse evento. Abraço o presidente do Pen Clube do Brasil, confrade Cláudio Aguiar. Saúdo a atriz Rosamaria Murtinho, talento consagrado em todo o país, que honra, com a sua presença e o seu talento, a presente sessão.

Sensibilizado, destaco, ainda, a figura imensa e referencial de Antônio Carlos Secchin, um dos intelectuais mais refinados de nosso tempo, cujas palavras na abertura dessa sessão deram a medida de sua generosidade.

Registro, igualmente, um agradecimento ao confrade Adriano Espínola, ora em viagem à sua ensolarada Fortaleza. Mesmo sabendo que sou apenas um jornalista, ele me distinguiu pela confiança, ao convidar-me para falar sobre Adélia Luzia Prado de Freitas, a poeta de Divinópolis.

Conhecida entre os mineiros como a estrela do Oeste, a localidade onde em 1935 nasceu a autora de “Terra de Santa Cruz” foi fundada ainda no século dezoito, mais precisamente em 1767, por João Pimenta Pereira, em nome das cinquenta famílias que viviam em propriedades próximas aos rios Pará e Itapecerica. Por causa disso, o lugar recebeu o nome de Paragem do Itapecerica. Três anos mais tarde, sua denominação foi alterada para Espírito Santo do Itapecerica. Doze anos depois, era chamada apenas de Espírito Santo. Sob essa inspiração foi batizada, em 1912, como Vila Divinópolis. A elevação a cidade e o nome atual vieram em 1915, quando o presidente do Estado era Delfim Moreira.

Relatam os geólogos que a maior parte de suas terras é formada por um solo vermelho e alaranjado argiloso, profundo e poroso. As estatísticas revelam que Divinópolis conta atualmente com cerca de duzentos e trinta mil habitantes, figurando na décima segunda posição entre os municípios de maior população no estado, à frente, portanto, da Barbacena de Abgar Renault e da Ituiutaba de Luiz Vilela. Sua economia é vigorosa e se baseia na indústria de confecções e no setor de serviços. As razões do progresso alcançado por Divinópolis, porém, vêm de longe e podem ser desvendadas pelo recurso à história, mais precisamente ao século dezenove.

A partir de 1870, discutia-se, em São João del Rey, a necessidade de implantar uma linha férrea que ligasse a cidade ao Rio de Janeiro. Após sete anos, uma linha da estrada de ferro Dom Pedro II chegou ao lugarejo chamado Sítio, a cem quilômetros de São João. Novo avanço ocorreu três anos depois, quando foi concluída a construção do trecho de quarenta e nove quilômetros que uniu o Sítio a Barroso. No ano seguinte, finalmente, foi inaugurada a Estrada de Ferro Oeste de Minas, que dispunha de quatro estações: Sitio, Barroso, São João del Rei e São José del Rei, hoje Tiradentes. Em quatro anos, a companhia ferroviária obteve a concessão para o prolongamento das linhas, chegando à região de Divinopólis em 1890, quando o presidente de Minas era João Pinheiro da Silva.

João do Prado Filho era ferroviário. Em 1934, casou-se com Ana Clotildes Correa, dona de casa, união da qual nasceu Adélia, a primeira filha, em 13 de dezembro do ano seguinte, em pleno advento, o tempo de quatro semanas destinado, no calendário litúrgico, à preparação para o Natal.

A proximidade com a Ordem Franciscana marcou os anos de sua formação. Seu irmão, o Frei Antônio do Prado, foi o primeiro franciscano de Divinópolis. A própria autora pertenceu à Ordem Terceira. Nas publicações da congregação, assinou diversos artigos, quase todos sob o pseudônimo ‘Franciscana’. Nas palavras de Augusto Massi, “o seu destino individual sempre girou na órbita de uma sociabilidade católica”.

A respeito de suas leituras iniciais, o referido crítico menciona, primeiramente, a influência paterna. Homem de terceiro ano primário, João do Prado Filho pedia que a filha recitasse seus poemas prediletos, entre os quais estavam “História de um cão”, do parnasiano Luís Guimarães, e “Morrer…dormir”, do romântico Francisco Otaviano. Olavo Bilac era outra das preferências do pai da autora. Entre os livros que Adélia leu ainda bem jovem, aparecem “Diário de um pároco de aldeia”, de George Bernanos, romances históricos como “Quo vadis?”, de Henryk Sienkiewicz, e “O manto de Cristo”, de Lloyd C. Douglas, além do que Massi chama de romances convencionais, como os escritos por M.Delly, Archibald Joseph Cronin e Somerset Maugham. A descoberta de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Clarice Lispector viria em torno dos vinte anos.

Antes disso, a menina ainda estudou no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, e fez o Magistério na Escola Normal Mário Casassanta. O curso de Filosofia foi concluído em 1973, ao lado do marido. Com José Assunção de Freitas, ou simplesmente o Zé, funcionário do Banco do Brasil, Adélia se casou em 1958 e teve cinco filhos: Eugênio, Rubem, Sarah, Jordano e Ana Beatriz.

A ligação de Adélia Prado com o Teatro merece registro. A peça “Laginha de Jesus”, escrita em parceria com Lázaro Barreto, foi publicada em 1969 pela Editora Vozes. Dez anos depois, a autora escreveu “O clarão”, um auto de Natal que, segundo ela, tinha clara intenção didática, catequética e política, já que o menino Jesus nascia numa fila do INPS. O texto foi encenado em várias igrejas de Divinópolis e das cidades vizinhas. Em 80, à frente do grupo “Cara e Coragem”, dirigiu uma montagem de “O auto da compadecida”, de Ariano Suassuna. Já o espetáculo “Dona Doida”, estrelado por Fernanda Montenegro em 87, sob direção de Naum Alves de Souza, foi integralmente inspirado na obra poética de Adélia. Outra peça criada a partir de sua produção foi “Duas horas da tarde no Brasil”, que estreou no Teatro Sesiminas, em Belo Horizonte, em 96, tendo no elenco a filha da poeta, a atriz Ana Beatriz Prado.

Até dedicar-se exclusivamente à arte poética, Adélia lecionou por vinte e quatro anos em instituições de ensino de Divinópolis. Deu aulas de Educação Religiosa, Educação Moral e Cívica, Filosofia da Educação, Relações Humanas e Introdução à Filosofia. Entre 83 e 88, exerceu o cargo de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e de Cultura. Em 93, integrou a equipe de orientação pedagógica da mesma secretaria.

A vocação irreversível para a Poesia foi assumida quando Adélia completou quarenta anos. É bem verdade que os primeiros versos foram escritos por volta de 1950, ano do falecimento de sua mãe. Mas a sua produção só se intensificou a partir de 72, data da morte do pai. Em 76, chegou “Bagagem”, lançado em prestigiada noite de autógrafos, no Rio de Janeiro, na presença de Antônio Houaiss, Nélida Piñon e Juscelino Kubitschek. Pouco tempo antes, em outubro de 75, Drummond publicava, no saudoso “Jornal do Brasil”, crônica dedicada à conterrânea, em que definia: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus”. Apresentado ao trabalho de Adélia por outro mineiro, Affonso  Romano de Sant’Anna, foi do itabirano a sugestão feita a  Pedro Paulo de Senna Madureira, então na Imago Editora, para publicar o primeiro livro da poeta de Divinópolis.

A “Bagagem” se seguiram “O coração disparado”, “Terra de Santa Cruz”, “O Pelicano”, “A faca no peito”, “Oráculos de Maio”, “A duração do dia” e “Miserere”.  Na prosa, não é menos importante a carreira de Adélia, composta de livros como “Solte os cachorros”, “Cacos para um vitral”, “Os componentes da banda”, “O homem da mão seca”, “Manuscritos de Felipa”, “Filandras”, “Quero minha mãe”, “Quando eu era pequena” e “Carmela vai a escola”, os dois últimos dedicados às crianças.

Concentro-me, agora, apenas na contribuição que dá à Poesia brasileira. Aí, o legado adeliano é respeitável: são mais de trezentos poemas distribuídos pelos oito títulos editados até o momento. Sua extensa produção ensejou variadas interpretações e uma rica fortuna crítica, que se amplia a cada ano, tanto no Brasil quanto no exterior. Sua obra se encontra traduzida para vários idiomas, como o inglês, o espanhol, o francês e até o mandarim, como integrante da célebre “Antologia de Poesia Brasileira”, seleção de Antônio Carlos Secchin, publicada pela Embaixada do Brasil na China, o Departamento Nacional do Livro e a Biblioteca Nacional, em 94.

Ainda que sejam fartos os comentários sobre o seu trabalho, Adélia continua capaz de encantar e surpreender, cativando novas gerações de leitores e confirmando a popularidade que marca a sua trajetória desde o início. Se por alguns estudiosos, ela é conhecida apenas como uma poeta católica, ou como a poeta da simplicidade, do dia a dia, da religiosidade e da eroticidade, por outros é tida como quem reflete sobre o ofício do poeta, a condição humana e o lugar da mulher, em particular. Augusto Massi, aqui já referido, situa seu aparecimento na cena literária brasileira como um último desdobramento do modernismo, cujas linhas de força, como ele diz, convergem para a retomada do cotidiano, da oralidade, da cultura popular e para o desejo de encurtar caminho até o leitor, trazendo a linguagem poética para o centro da vida. O também já mencionado Affonso Romano de Sant’Anna escreve que Adélia é a primeira poeta brasileira que tem marido e filhos, que cuida da casa, que tira poeira, traz legumes da horta e tem alucinações eróticas. A respeito dela, opina o escritor Caio Fernando Abreu: a impressão que a gente tem é que, ao invés de instalar-se numa aristocrática escrivaninha para ‘caçar’ a poesia (como ela diz), Adélia ronda pela casa de caderno em punho, observando. O crítico Fábio Lucas, meu confrade na Academia Mineira de Letras, aponta problemas da poética adeliana, que marcaria uma época literária de descompromisso formal, de franqueza vocabular e de confissão desabrida de aspirações cotidianas. Comenta ele: Adélia aparenta destruir cânones, ao mesmo tempo em que manifesta um fervor litúrgico de sacristia.

Ouço a voz da própria Adélia para compreender melhor o seu universo. Não é difícil encontrá-la, já que concedeu inúmeras entrevistas aos meios de comunicação e proferiu dezenas de palestras país afora. Por muitos anos, Adélia percorreu o Brasil para divulgar seus livros e suas reflexões sobre a vida, não se furtando em debater com o público as questões centrais suscitadas por sua poesia. Experiente professora e catequista, ciente do poder da palavra falada e bem comunicada, é também dotada das habilidades cênicas herdadas da vivência teatral. Presença envolvente e carismática, domina a expressão oral do verbo, gerando sentenças claras, concisas e de grande impacto. Diz Adélia, sobre a poesia:

A poesia é um acontecimento cósmico, sem explicação lógica. É a experiência da totalidade, da inserção no eterno. É capaz de nos ligar a um centro de significação e sentido. Por isso, vem de fonte sagrada. Não é à toa que a poesia é a linguagem da mística. Todos os livros fundadores das grandes religiões também são vazados em poesia. Eu posso rezar qualquer tipo de poesia. Assim, é fácil entender por que o poema nos é dado. O poeta é um instrumento de algo que o suplanta. A criação poética é milagrosa porque supere e antecede o artista. Não é invenção dele. Ninguém cria a beleza. Ela vem da terceira margem da alma. Os poetas apenas captam, formalizam. E por caminhos que nem percebem ou compreendem. Agem pela força de um dom do qual são portadores, às vezes, as pessoas mais improváveis. Para penetrar na poesia é preciso despojar-se do orgulho da mente. A poesia não é um fenômeno intelectual nem acadêmico. É feita para a sensibilidade. Por ser divina, ela não recusa nada, não escolhe temas. E resgata tudo: o espírito, a alma, o corpo, as misérias do ser humano, perecível e carente, as suas sombras.

E prossegue a autora de “Miserere”: A poesia é a revelação do real. Ela expressa a sensação de susto e de estranhamento diante da vida. Existir é perturbador, é esquisito. O que dispara a minha criação poética é o assombro e a perplexidade face ao mistério da existência.

Como leitor de sua obra, sou tocado, especialmente, pelo modo como funde corpo e alma; matéria e espírito; humano e divino, apagando qualquer separação ou distância possível entre eles. Em ‘Nenhum verso em dezembro’, de “O coração disparado”, a poeta confessa: ‘minha alma quer copular’. Em ‘Festa do Corpo de Deus’, poema do livro “Terra de Santa Cruz”, Jesus tem um par de nádegas, e suspenso na cruz, sem panos, exposto como um fruto, revela a inocência da carne. De “O Pelicano” são os versos de ‘Deus não rejeita a obra de suas mãos’, em que se pode ler: ‘O corpo não tem desvãos, só inocência e beleza, tanta que Deus nos imita e quer casar com sua Igreja e declara que os peitos de sua amada são como os filhotes gêmeos da gazela. É inútil o batismo para o corpo. O que tem suas leis as cumprirá. Os olhos verão a Deus’.

Com o divino, ou Jonathan, como por muitas vezes o chamou, em sua obra, a partir do poema ‘Tempo’, de “O coração disparado”, a poeta estabelece uma relação de amor sagrado e profano, ao mesmo tempo. Estão em ‘A batalha’, do livro “O Pelicano”, os seguintes versos: ‘Perdi o medo de mim. Adeus. Vou às paisagens do frio atrás de Jonathan. Deve ser assim que se vive, na embriaguez deste voo no rumo certo da morte. Amo Jonathan. Eis aí o monocórdio, diarreico assunto. ‘Ele quer te  ver’, alguém disse no sonho. E desencadearam-se as formas onde Deus se homizia. Pode-se adorar tufos de grama, areia, não se descobre donde vêm os oboés. Jonathan quer me ver. Pois que veja. O diabo uiva algemado nas profundezas do inferno, enquanto eu tiro o corpo da roupa’. Do livro “A faca no peito” é ‘O aprendiz de ermitão’: ‘É muito difícil jejuar. Com a boca decifro o mundo, proferindo palavras, beijando os lábios de Jonathan que me chama Primora, nome de amor inventado’. E em outro trecho: ‘Meu corpo de novo é inocente, como a pastos sem cerca amo Jonathan, mesmo que me esqueça’.

Como Adélia Prado certa vez declarou que há três temas em que pensa todos os dias – Deus, sexo e morte – busco entender como a indesejada das gentes aparece em sua poesia. Em alguns momentos, a morte é amiga, como em ‘Campo Santo’, de “O coração disparado”: ‘Na minha terra a morte é minha comadre. Subo a rua Goiás, atrás de coisas miúdas, um chinelo, uma travessa, uma bilha nova, e, à medida que subo, mais chego perto do campo ondem dormem sem sobressaltos o pai, a mãe, a irmã, a menina que no segundo ano se chamava Teresinha. A grande tarefa é morrer’. A morte também é encarada como passagem para a eternidade, como em ‘Bendito’, de “Bagagem”: ‘Louvado sejas porque eu quero morrer, mas tenho medo e insisto em esperar o prometido. Uma vez, quando eu era menino, abri a porta da noite, a horta estava branca de luar e acreditei sem nenhum sofrimento. Louvado sejas!’ No mesmo sentido, e do mesmo “Bagagem”, é ‘O Reino do Céu’, de que digo pequeno trecho: ‘Depois da morte eu quero tudo o que seu vácuo abrupto fixou na minha alma. Quero os contornos desta matéria imóvel de lembrança, desencantados deste espaço rígido. Como antes, o jeito próprio de puxar a camisa pela manga e limpar o nariz’. Em outros momentos, a morte aterroriza, como em ‘De profundis’, também do livro de estreia: ‘Quando a noite vier e minh’alma ciclotímica afundar nos desvãos da água sem porto, salva-me. Quando a morte vier, salva-me do meu medo, do meu frio, salva-me, ó dura mão de Deus com seu chicote, ó palavra de tábua me ferindo no rosto’. Igualmente vale a pena dizer um trecho de ‘Mortes sucessivas’, de “Bagagem”, poema para o qual a morte produz memória: ‘Quando minha irmã morreu eu chorei muito e me consolei depressa. Tinha um vestido novo e moitas no quintal onde eu ia existir. Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento. Tinha uma perturbação recém-achada: meus seios conformavam dois montículos e eu fiquei muito nua, cruzando os braços sobre eles é que eu chorava. Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.” A ilusão e a esperança de derrotar a morte também aparecem. A menina que passou a infância no bairro dos ferroviários, à beira da linha da Estrada de Ferro Oeste de Minas, um dia escreveu em ‘A carpideira’, poema de “Terra de Santa Cruz”: ‘Tinha tanto medo de casar com moço que não fosse da Rede Ferroviária, queria trastes de ferro pra nunca mais se acabarem. Pensava assim: se a cama for de ferro e as panelas, o resto Deus provê: é nuvem, sonho, lembranças. Ainda mais que não ia morrer, e ainda não vou, porque sou doida e escapo como as boninas’.

Mulher do povo e mãe de filhos, Adélia diz, em ‘Tabaréu’, de “Bagagem”, que o mais universal a que chega é a recepção de Nossa Senhora de Fátima em Santo Antônio do Monte. Em “Desenredo”, de “O coração disparado”, porém, admite, consciente da condição humana: ‘Sofrer não é em língua nenhuma. Sofri e sofro em Minas Gerais e na beira do oceano. Estarreço de estar viva. Ó luar do sertão, ó matas que não preciso ver pra me perder, ó cidades grandes, estados do Brasil que amo como se os tivesse inventado’.

Mineira e universal, Adélia Prado é, antes de tudo, a filha de João e Ana Clotildes, nascida em Divinópolis, oeste de Minas, a cidade que um dia se chamou Espírito Santo do Itapecerica e, depois, simplesmente, Espírito Santo. Digo, para finalizar, o poema ‘Divinópolis’, que está ‘A duração do dia’:

‘As hastes das gramíneas pesavam de sementes sob uma luz que, asseguro-vos, nascia da luz eterna. Quis dizê-la e não pude,/ ingurgitada de palavras, minha língua se confundia. Cantei um hino conhecido e foi pouco, disse obrigada, Deus, e foi nada. Em meu auxílio meu estômago doeu um pouco pelo falso motivo de que sofrendo Deus me perdoaria. Foi quando o trem passou, uma grande composição levando óleo inflamável. Me lembrei de meu pai corrompendo a palavra que usava só para trens, dizendo ‘cumpusição’. O último vagão na curva e passa o pobre friorento, de blusa nova ganhada. Aquiesci  gozosa, a língua  muda, a folha branca, a mão pousada’.

Muito obrigado.