Com interesse, acompanhei, pela imprensa, as notícias relativas à última edição da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty. Em quinze anos, ela conquistou excelente reputação e amplo impacto, atraindo gente de todos os cantos do país e até mesmo do exterior. A curadora Josélia Aguiar acertou em cheio ao escolher o imenso Lima Barreto como homenageado desse ano. Corajoso, o escritor carioca soube, como poucos, dar voz a segmentos sociais e étnicos que, em seu tempo, praticamente não eram ouvidos. Sob tal inspiração, o elenco de convidados de 2017 incluiu intelectuais que hoje desempenham tal tarefa, entre os quais a mineira Conceição Evaristo, uma das conferencistas mais festejadas do evento, e autora de obra literária que discute, entre outras, a questão do negro no Brasil. Mais um importante avanço foi o aumento da participação das mulheres escritoras, o que contribuiu para tornar a FLIP ainda mais plural e democrática.

Agora, é a capital mineira que se prepara para o Festival Literário Internacional de Belo Horizonte, o FLI BH, importante acontecimento cultural que chega à sua segunda edição. A homenageada desse ano é a escritora Laís Correa de Araujo e os curadores são Francisco de Moraes Mendes, o Chico, excepcional contista, e Adriane Garcia. Com o tema “Vozes de todos os cantos”, o evento pretende valorizar a diversidade e a riqueza de manifestações que ocorrem em torno do fenômeno literário, reunindo as vozes das ruas, da academia, dos saraus e do público leitor. O Festival será realizado entre os dias 14 e 17 de setembro, no Centro de Referência da Juventude, na Praça da Estação, e contará com programação extensa e variada. Não tenho dúvidas de que o FLI BH será bem sucedido. A população da cidade tem sede de arte, e adora se encontrar para cultivá-la. A presença de autores especialmente convidados contribuirá para tornar a festa ainda mais interessante.

Também em setembro, a Câmara Mineira do Livro, presidida por Rosana Mont’alverne, entusiasmada defensora da Literatura, realizará o FLIR, o Festival do Livro na Rua, sob a curadoria do editor e jornalista José Eduardo Gonçalves. O evento pretende revalorizar as livrarias de rua e vai ocorrer justamente nos três quarteirões da Rua Fernandes Tourinho, na Savassi, que são famosos por sediar livrarias como a Scriptum, a Quixote e a Ouvidor. A iniciativa também contará com uma equipe de vídeo que gravará depoimentos de leitores sobre livros e autores que marcaram suas vidas. Tenho a certeza de que o time registrará histórias extraordinárias. Quem nunca se deixou tocar por uma experiência de leitura?

É por isso que o Serviço Voluntário de Assistência Social, o SERVAS, liderado por Carolina de Oliveira Pimentel, lançou o projeto “Roda de Leitura”. Ele leva escritores aos presídios de Minas para conversar com os presos. Os autores deixam exemplares de suas obras na unidade prisional. Se leem um livro e fazem uma resenha sobre ele, os internos ganham quatro dias de remissão de pena, conforme manda a lei. Mais importante que isso, porém, é o encontro com a literatura, com a possibilidade de sonhar e de criar outros mundos. Xico Sá e Leonardo Boff já participaram do projeto. Em breve, será a vez de Frei Beto e dos membros da Academia Mineira de Letras. A iniciativa já coletou depoimentos impressionantes dos detentos. O livro é potente até para reacender as esperanças há muito tempo apagadas.