No final da década de noventa, apresentei um programa no Canal 23 de tevê a cabo, então comandado por dois experientes (e generosos) profissionais, Alberico Souza Cruz e Lauro Diniz. Audaciosos, eles montaram uma emissora totalmente dedicada ao jornalismo, de onde saíram ótimos repórteres e editores, como Juanita Gontijo, Juliana Perdigão, Inácia Soares e Claudinei Moreira. A estação marcou época na cidade, prestigiando os assuntos caros à população de Belo Horizonte. Deixou saudades.

Como âncora do “Jogo Duro”, tive a alegria de entrevistar figuras interessantíssimas, entre as quais o ministro Oscar Dias Correa, a crítica teatral Bárbara Heliodora, a cantora Elza Soares e a embaixatriz Lúcia Flecha de Lima. Um dos convidados foi o escritor Olavo Romano, hoje meu confrade na Academia Mineira de Letras (AML). Dono de prosa envolvente e bem-humorada, o mineiro de Morro do Ferro rendeu uma das edições mais divertidas de que me lembro. Exímio contador de casos, compartilhou com o público algumas das belíssimas histórias da gente do interior do estado, por ele devidamente registradas em livros como “Casos de Minas” e “Os mundos daquele tempo”, parte de sua já extensa bibliografia.

Foi por meio de Olavo que conheci Manuelzão, transformado em personagem por Guimarães Rosa. Jantamos juntos em memorável noite na casa do professor Apolo Heringer Lisboa, quando tive a oportunidade de ouvir relatos impressionantes sobre o sertão das Minas Gerais. Fiel amigo de quem chamava de ‘mano velho’, Olavo acompanhou Manuelzão de perto em sua doença e em seus últimos dias, dando a ele toda a assistência possível. Conhecedor do verdadeiro espírito de fraternidade, foi imbuído dele que o autor de “Cidade Submersa e 30 histórias sortidas” assumiu a presidência da AML, na sucessão de Orlando Vaz.

Inaugurado ontem, o retrato de Olavo na galeria de ex- presidentes da Casa de Alphonsus de Guimaraens agora está ao lado dos de outros líderes que souberam amá-la e respeitá-la, como José Oswaldo de Araujo e Vivaldi Moreira. Nada mais justo. Olavo foi um timoneiro diligente, aberto e sensível ao seu tempo, responsável por ampliar a interlocução da instituição com diferentes segmentos sociais, como a universidade, o mundo corporativo e a classe artística. Em sua gestão, a presença da Academia na internet, nas redes sociais e na imprensa se multiplicou, e as atividades promovidas na sede da Rua da Bahia se intensificaram. Agregador, Olavo Romano foi leal ao que se pede de um acadêmico: a habilidade de conviver com os colegas de modo ameno, solidário e respeitoso.