Volto a escrever sobre Lídia Jorge, uma das mais premiadas autoras portuguesas da atualidade. Se antes comentei a respeito de um de seus mais impressionantes livros, “O Vale da Paixão”, publicado no Brasil, pela Record, em 2003, sob o título de “A manta do soldado”, agora abordo outra obra igualmente marcante da romancista nascida no Algarve, em 1946: “A Costa dos Murmúrios”, que saiu no Brasil pela mesma editora, em 2004, mais de uma década após a primeira edição portuguesa, de 1988. O livro também foi adaptado para o cinema. O longa-metragem, dirigido pela portuguesa Margarida Cardoso, foi lançado em 2004 com o mesmo título. É uma boa recriação, com elenco convincente e roteiro fiel às intenções de Lídia.

Já na ‘orelha’, o baiano Antônio Torres, da Academia Brasileira de Letras, trata Lídia como responsável por uma das produções literárias mais originais, abrangentes e significativas do nosso tempo. E o enredo que ela apresenta ao leitor confirma tal opinião. Tendo como pano de fundo os últimos anos dos portugueses no continente africano, especialmente em Moçambique, a autora constrói uma trama sofisticada, em que as personagens falam de amor e de morte e em que a posição das mulheres se assemelha à dos colonizados, pela situação de opressão a que ambos se sujeitam.

Admito: não foi leitura fácil. “A Costa dos Murmúrios” contém dois relatos, o primeiro dos quais se intitula “Os gafanhotos”. Com a estrutura e a extensão de um conto, ele narra história bem semelhante à que se lê na segunda parte, esta sim, constituída no padrão do romance. A voz da narradora se manifesta de modo complexo. Ora se apresenta como a de Evita, ora se apresenta como a de Eva Lopo, a mesma personagem, vinte anos depois. O tema da memória é, pois, inevitável, sendo o que oferece uma das chaves mais valiosas para a compreensão do texto de Lídia: o que recordar? o que esquecer?

Pertencente à geração de escritores que despontou logo após a Revolução dos Cravos, de 1974, Lídia Jorge tem contribuído, com sua literatura, para a reescrita do que foi o salazarismo e a relação de seu país com as chamadas ‘províncias ultramarinas’. Contrária ao discurso oficial, ela reconfigura o passado de modo crítico, descartando seu caráter heroico ou benfazejo. “A Costa dos Murmúrios” denuncia a violência e as barbaridades cometidas durante o tempo em que Portugal esteve na África. Um comentário final: mesmo que a autora tenha realizado rigorosa pesquisa sobre os fatos no Museu Militar de Lisboa, o que impressiona mesmo é a sua capacidade de imaginar como teria sido a vida de tantas mulheres e homens anônimos, todos esmagados pela experiência da guerra colonial.