Por muito tempo, atingir os cem anos era marca alcançada por poucos brasileiros. Lembro-me de quando o saudoso “Jornal do Brasil” completou dez décadas e resolveu editar um caderno especial, contendo entrevistas com cem brasileiros centenários. Não foi tão fácil encontrá-los. Em Minas, ajudei a repórter Alessandra Melo a localizar alguns. Tia de minha mãe, Maria José Cotta de Vasconcellos, de Ponte Nova, na Zona da Mata, foi uma das entrevistadas. O jornalista Lindolpho Espeschit, um dos pioneiros do rádio no estado, foi outro. Hoje, com o avanço da medicina e das tecnologias, o quadro mudou um pouco, e a esperança de vida aumentou. Heloísa Ribeiro Tunes, avó de Sabrina, viveu até os cento e dois anos. Agnes Farkasvolgyi me informa que sua avó, dona Judith dos Mares Guia, está firme e forte, na plenitude de seus cento e sete. A professora Elza de Moura, que já foi tema dessa coluna, conta cento e dois, dando palestras, lendo Eça de Queiroz e tomando sua cervejinha à noite, antes de dormir. Com saudade, recordo-me de mais um personagem que venceu o século, falecendo aos cento e três, no Rio de Janeiro, e deixando importante legado para a cultura brasileira: o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que tive a alegria de entrevistar, na sua casa em Botafogo, quando ainda estudava Jornalismo.

A pergunta a que provavelmente todos eles já tiveram um dia que responder não surpreende: qual é o segredo da longevidade? Existe receita? Algumas reportagens mostram que os centenários dos países mediterrâneos se beneficiam da dieta saudável, típica da região em que nasceram, à base de azeite de oliva e dos chamados peixes brancos. Outras se referem a bons hábitos, como caminhadas e o contato com a natureza e o ar puro. As mais completas incluem um fator que considero essencial: participação na vida da comunidade, relação frequente e próxima com uma boa rede de amigos, o que produz uma sensação de pertencimento e amparo.

Mais que tudo, o que importa, no fundo, é se a experiência de viver faz sentido. Isso, de fato, leva a gente longe. Conheço certos jovens que não veem qualquer graça na vida. Ela se torna um fardo pesado demais para carregar. A depressão corre solta e a onda de suicídios assombra. Como cuidar disso? Não é fácil. Uma boa tentativa talvez seja a de valorizar mais a beleza do que é simples, fácil e não custa um centavo. A vida, por definição, é abundância.