Localizado no Centro Oeste mineiro, o município de Luz faz divisa com Córrego D’Anta, terra natal de meu pai. Antes de fixar-se em Patrocínio, no Alto Paranaíba, onde advogou por mais de vinte anos, foi para Luz que ele se mudou, assim que colou grau na Faculdade de Direito até hoje instalada na Praça Afonso Arinos, em Belo Horizonte. Falava da cidade com carinho. Por essa razão, guardo o nome de Luz em canto privilegiado de minha memória afetiva. E a ela recorro toda vez que converso com o confrade Ronaldo Costa Couto, da Academia Mineira de Letras, que nasceu em Luz, em 1942.

Economista formado pela UFMG, Ronaldo fez carreira brilhante no serviço público, desempenhando, entre outras, a difícil tarefa de coordenar a fusão entre os estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, onde, depois, compôs a equipe de Faria Lima. Em Minas, foi secretário de estado do Planejamento e presidente do BDMG. Na redemocratização, foi ministro do Interior e do Trabalho, chefe da Casa Civil e governador do Distrito Federal. A partir de 95, começou a publicar livros de história, campo ao qual dedicou seus estudos de Mestrado e Doutorado na Sorbonne, na França. Escreveu sobre Juscelino Kubitscheck e Tancredo Neves. Realizou importante trabalho sobre a ditadura militar e a abertura política. Autor da biografia de Fernando Reis e do Conde Francesco Matarazzo (esta editada em dois volumes), Ronaldo lançou agora outra obra de referência: “A saga da família Klabin-Lafer” (Chermont Editora, 577 páginas), que  seduz tanto pela forma quanto pelo conteúdo.

Em edição de capa dura e papel couchê, é ilustrada por fotos de inegável relevância histórica. No final do volume, um encarte especial traz a árvore genealógica completa da família cuja trajetória descreve com estilo fluente e de agradável leitura. Comprovação da qualidade da pesquisa empreendida, entre as fontes principais de que Ronaldo se serviu para escrever o livro estão os oitenta depoimentos que colheu pessoalmente, acrescidos daqueles a que teve acesso no Centro de Documentação e Memória da Klabin. As referências bibliográficas são muitas, bem como as revistas e os jornais consultados. Esse é o padrão do autor, conforme destaca Celso Lafer, na apresentação. No mesmo texto, o professor da USP ainda reflete sobre o significado de “A saga…”: “O livro tem, portanto, uma dimensão de história institucional, mas de uma história institucional sui generis, vivificada pelo atraente da crônica das múltiplas travessias de muitas gerações de uma família que também se dedicou e atuou, com relevo, em diversificadas esferas da vida cultural, social e política do país”.

Comecei a ler o livro numa noite de sábado. Impressionou-me a história iniciada pelo jovem Maurício Klabin, judeu lituano que imigrou para o Brasil aos vinte e nove anos, chegando em Santos em 1889, data da proclamação da República. Atraíram-me, igualmente, as figuras marcantes de Wolff Klabin e de Horácio Lafer (ministro de Getúlio e de JK). Terminei a empreitada na segunda, tocado pela força e pela perseverança das personagens do livro. E grato a Ronaldo, por havê-las revelado ao grande público.