Ao longo de seus cento e vinte anos, Belo Horizonte inspirou cronistas de primeira linha, como Carlos Drummond de Andrade, Djalma Andrade, Roberto Drummond e Fernando Brant. Nos dias de hoje, pode contar com a pena experiente de Manoel Hygino dos Santos e com o talento de Michele Borges da Costa. Observadores atentos e espirituosos do cotidiano e dos costumes, os autores das crônicas de jornal acabam redigindo, despretensiosamente, uma espécie de ‘história paralela’ da sociedade em que vivem, fonte valiosa de pesquisa para os estudiosos. É como muitos leem, atualmente, os textos escritos por Alfredo Camarate, considerado o primeiro cronista da capital mineira.

Nascido em Lisboa, em 1840, Camarate estudou no Reino Unido e viajou por diversos países, terminando por imigrar para o Brasil, em 1872. No Rio de Janeiro, trabalhou no comércio e colaborou em vários jornais. A ele se atribui a fundação da crítica musical brasileira. A mudança para Ouro Preto se deu em 1893, mesmo ano em que começou a assinar alguns textos no Minas Gerais, órgão noticioso da Imprensa Oficial do Estado. Convidado a integrar a Comissão Construtora da Nova Capital, chefiada por Aarão Reis, Camarate mudou-se com a família para o arraial em que se ergueria Belo Horizonte, iniciando a série de crônicas intitulada “Por montes e vales”, sob o pseudônimo de Alfredo Riancho, em 1894, três anos antes, portanto, da inauguração oficial da cidade. Esquecido por décadas, o trabalho de Camarate foi resgatado pelo historiador Abílio Barreto em livro de 1936, e, depois, revalorizado pelo professor Eduardo Frieiro, cujos estudos possibilitaram uma edição especial da revista do Arquivo Público Mineiro, de 1985. Trabalhos mais recentes voltaram a iluminar a contribuição de Camarate para a literatura e a história de Belo Horizonte. Destaco os de autoria de Pedro de Castro Luscher e de Thiago Carlos Costa.

Imbuído das ideias em favor do progresso e da civilização, Alfredo sofria influência do positivismo, naquela época bastante forte, e do espírito republicano e modernizador. As grandes reformas urbanas feitas em algumas cidades europeias no século dezenove, sobretudo em Paris, pelo Barão de Haussmann, eram modelos a serem seguidos. Sob essa ótica é que caminhava pelas ruas. Reparava em tudo. Escreveu sobre os bairros mais pobres, o estilo arquitetônico das casas humildes, os padrões hoteleiros, os hábitos alimentares, as cerimônias fúnebres, o aspecto físico dos habitantes do arraial…

Para quem gosta de imaginar como teria sido Belo Horizonte em seus primeiros anos, nada melhor do que ler o que Alfredo escreveu, como o trecho que reproduzo agora, de março de 1894: “(…) divisamos a povoação de Belo Horizonte, incrustada numa mata verde-negra e densíssima dentre a qual emergiam os campanários da igreja, construída nas primitivas simplicidades da arquitetura (…) Umas casas muito humildes com aparência de cubatas e, nos intervalos das casas, longos muros de barro vermelho, assombreados por árvores frutíferas. Mas tudo aquilo muito limpo, muito alinhado e sempre da mesma forma e com o mesmo encanto se chega a Belo Horizonte; um ‘belo horizonte; na realidade’!”