Conheci Darcy Ribeiro quando cursava o último ano de Jornalismo, na PUC Minas, no hoje distante 1995. Com a colega Alessandra Mello (que se tornou excelente repórter e atualmente preside o Sindicato dos Jornalistas Profissionais), passei uma semana em Brasília, fazendo a cobertura das atividades do Congresso. Foi no período em que se deram as primeiras modificações da Constituição promulgada em 1988. Os dias no Distrito Federal resultaram em rico aprendizado. No final da tarde, íamos para as emissoras de tevê, com o objetivo de acompanhar o fechamento das edições dos telejornais, sendo sempre muito bem recebidos: na Globo, pela encantadora e competentíssima Nereide Beirão; no SBT, por Marco Antônio Campos; na Bandeirantes, por Nairo Alméri; na TV Brasília, por Álvaro Pereira. Todos mineiros.

Outro benefício retirado da experiência brasiliense foi o de entrevistar alguns importantes parlamentares. Lembro-me da visita ao gabinete de Roberto Campos, representante do Rio de Janeiro na Câmara, quando fomos recepcionados com imensa cordialidade. Inesquecível, igualmente, foi o encontro com o antropólogo Darcy Ribeiro, mineiro de Montes Claros, então senador pelo Rio. Sem qualquer formalidade, o autor de “Os Índios e a Civilização” e “Processo Civilizatório” falou de vários assuntos, feliz por estar com dois jovens estudantes vindos das Minas Gerais. Saí de seu gabinete impressionado com o entusiasmo com que defendia suas ideias. A memória dessa conversa  foi decisiva para que, dois anos depois, me decidisse a mergulhar na sua autobiografia.

“Confissões” figura, certamente, entre os melhores livros que já li. É leve, saboroso, envolvente, divertido. O conteúdo é insuperável. Darcy viveu a vida de modo intenso e apaixonado, o que está em todas as páginas do volume lançado em 97. Além disso, foi protagonista e testemunha de parte expressiva da história brasileira da segunda metade do século vinte. O precioso texto biográfico foi escrito quando o fundador da Universidade de Brasília já sabia que a ‘indesejada das gentes’ estava cada vez mais próxima. Foi na mesma ocasião que Darcy redigiu “O povo brasileiro” e “Os Diários Índios”, outras obras fundamentais para a compreensão de seu valioso legado.

“Migo” também contém traços biográficos, mas Darcy preferiu chamá-lo de romance. Para setores da crítica, o livro é tido como “auto ficção”, formato hoje muito popular na Literatura Brasileira. Seja lá como for, é leitura que vale muito a pena, assim como outra ficção de Darcy, essa bem mais antiga, “Maíra”, editada em 1976. Objeto de bela conferência do escritor Petrônio Braz na Academia Mineira de Letras, no ano passado, por ocasião dos quarenta anos de seu lançamento, o livro também foi tema de estudo da professora Haydée Ribeiro Coelho, da UFMG, que palestrou na ‘Casa de Alphonsus de Guimaraens’ nessa semana, em sessão especialmente marcada para lembrar os vinte anos sem Darcy.

Em uma hora de explanação rigorosa e consistente, a docente da Faculdade de Letras mostrou como prossegue relevante e atual o pensamento de Darcy, que continua a ser lido no mundo inteiro. Ah, que falta ele nos faz…