Nascido em Belo Horizonte no começo da década de setenta, aprendi a amá-la desde cedo, apreciando suas qualidades sem desconhecer o que precisa ser aperfeiçoado. Quando era criança, adorava passear no Parque Municipal (com seus fotógrafos lambe-lambe) e na Pampulha, sobretudo no Parque Guanabara, que está aí firme até hoje, para alegria dos pequenos. Fundado há oitenta e dois anos, o Minas Tênis Clube é outra referência fundamental na minha memória afetiva, bem como o Parque das Mangabeiras, inaugurado no início dos anos oitenta, encantando a todos com suas matas exuberantes, seus ariscos quatis e a beleza de seu Parque das Águas. Também não há como esquecer os cinemas de rua (como o Metrópole, o Jacques, o Pathé…) e as lanchonetes que igualmente desapareceram, como o Ted’s, a Torre Eiffel e a Tia Clara. Outro dia soube que a Doce Docê, uma das melhores, agora está de volta, com loja no Belvedere. Não sei como ainda não apareci por lá, para degustar a famosa coxinha de catupiry, invenção de Theresa Martins de Oliveira, fundadora do estabelecimento.

 

Remexendo nas lembranças de um tempo que já se foi, reencontro restaurantes preciosos, que marcaram época na cidade. Do Alpino (antes na Rua dos Tupinambás e depois na Avenida do Contorno), trago até hoje comigo o apfelstrudel com chantilly servido como sobremesa. Da Cantina do Angelo, na Avenida Afonso Pena, recolho os filés suculentos, acompanhados de arroz branco, feijão e batata frita. Do Nini Restaurante, na Avenida Cristóvão Colombo, ao lado do SERVAS, guardo a imagem da rica salada no potinho e dos pratos preparados com capricho pela dona da casa, Nini Barreto, irmã da famosa atriz Márcia de Windsor. Do Restaurante do Hotel Normandy, na Rua dos Tamoios, permaneço fiel ao medalhão com arroz à piemontese.

 

Entre as recordações da adolescência, uma das mais marcantes permanece a de voltar a pé para casa com amigos, depois das festas, de madrugada, sem o menor risco, como se fosse quatro da tarde. Hoje, infelizmente, isso não é mais possível. A cidade cresceu muito e seus problemas mudaram de patamar.

 

Para pensar sobre eles e sobre como Beagá chega aos 120 anos, o BDMG Cultural realizará um importante seminário nos dias 14 e 15 desse mês. Aberto ao público, com entrada franca, sem necessidade de inscrição prévia, o evento será no Auditório Marco Túlio, na sede do Banco (Rua Bernardo Guimarães, 1600), das oito e meia da manhã às cinco da tarde. Concebido para apresentar à comunidade o melhor da pesquisa que se faz sobre a capital mineira hoje, o encontro reunirá nove destacados intelectuais, sob a curadoria da professora Eliana Dutra, titular do Departamento de História da UFMG. Entre os palestrantes estarão: João Antônio de Paula, Wander Melo Miranda, Sérgio Alcides, Carlos Antônio Leite Brandão, Maria Eliza Linhares Borges, Regina Horta Duarte, Augusto Carvalho Borges, Bruno Viveiros e Tito Flávio de Aguiar. Os temas a serem discutidos incluem a história, a arquitetura, a cultura, a literatura, a convivência urbana, o meio ambiente… A ideia é proporcionar a todos um espaço de reflexão profunda e sofisticada, que permita um debate maduro e de alto nível sobre os diversos aspectos relacionados à vida na cidade. Ela merece.