Nunca vou esquecer a visita feita a Ariano Suassuna, em sua residência no bairro da Casa Forte, no Recife. A construção onde morou com a esposa, Zélia, por cinquenta e cinco anos, foi erguida em 1870, na zona norte da capital pernambucana, próxima ao Rio Capibaribe. Bem amplo, o mesmo lote em que foi instalada também abrigou as moradias de outros membros da família. Ariano teve seis filhos e quinze netos, a maioria vivendo sempre muito perto dele. “Sou patriarcal”, gostava de dizer. Acompanhado da excelente jornalista Marianne Brito (filha do repórter Francisco José, da Rede Globo), passei cerca de duas horas ouvindo as histórias de um dos mais importantes escritores brasileiros. Pouco tempo depois, Ariano proferiu uma impressionante ‘aula-espetáculo’ em Belo Horizonte. Para uma plateia lotada, mais uma vez, ele afirmou seu amor à cultura e ao povo do Brasil, defendendo um país livre e combatendo, com veemência, a influência de valores estranhos à nacionalidade brasileira.

Em homenagem à obra literária de Ariano e aos noventa anos que faria se estivesse vivo, a Academia Mineira de Letras realizou sessão especial no começo da semana, quando contou com a presença de três intelectuais de primeira linha, profundas conhecedoras do legado do autor, falecido em julho de 2014: Angela Vaz Leão, professora emérita da UFMG, nome referencial na comunidade acadêmica brasileira; Marcélia Guimarães Paiva, da UFJF, e Karina Calado, da PUC Minas. Em noite memorável, elas leram e analisaram três poemas do paraibano de João Pessoa, mais conhecido por seus romances e pelo seu teatro que por suas incursões poéticas.

Fato ignorado por muitos, Ariano compôs belíssimos ‘poemas visuais’, unindo o texto literário a imagens, dando origem às suas ‘iluminogravuras’, termo por ele cunhado para expressar o encontro entre a técnica medieval das iluminuras e o moderno processo das gravuras. Quatro delas, de propriedade de D. Angela, amiga pessoal do autor, foram exibidas na Academia, durante a sessão. Para produzi-las, Ariano gerava, primeiro, uma matriz da ilustração e do texto manuscrito, com nanquim preto sobre papel branco. Em seguida, fazia cópias dessa matriz em uma máquina de gráfica off set. Finalmente, trabalhava cada cópia manualmente, colorindo o desenho com tintas guache, óleo e aquarela, por meio de pincel.

Num dos poemas analisados, Ariano expõe toda a imensa dor pelo assassinato do pai, João Suassuna (que governou a Paraíba entre 1924 e 1928), quando ele tinha apenas três anos. Intitulado “A Acauhan – a malhada da onça (com mote de Janice Japiassu)”, o texto é de uma força e de uma beleza incríveis: “Aqui morava um Rei, quando eu menino: vestia ouro e Castanho no gibão. Pedra da sorte sobre o meu Destino, pulsava, junto ao meu, seu Coração. Para mim, seu Cantar era divino, quando, ao som da Viola e do bordão, cantava com voz rouca o Desatino, o Sangue, o riso e as mortes do Sertão. Mas mataram meu pai. Desde esse dia, eu me vi, como um Cego, sem meu Guia, que se foi para o Sol, transfigurado. Sua efígie me queima. Eu sou a Presa, Ele, a Brasa que impele ao Fogo, acesa, Espada de ouro em Pasto ensanguentado.”