No ano que em breve se encerra, a Academia Mineira de Letras ofereceu à cidade uma programação intensa, graças à generosidade dos especialistas que aceitaram o convite para partilhar com o público os seus conhecimentos literários. No âmbito da sua Universidade Livre, a Academia celebrou o centenário de nascimento do gramático Celso Cunha e dos escritores Antônio Callado e Josué Montello. Para falar de Cunha, veio do Rio de Janeiro sua filha, a professora Cilene, que falou em mesa igualmente integrada pelas professoras Angela Vaz Leão, Letícia Malard e Maria Inês de Moraes Marreco (idealizadora do belo centro cultural IDEA, instalado em majestoso palacete à Rua Bernardo Guimarães, 1200). A obra do autor de “Quarup” e de “A Madona de Cedro” foi comentada pela viúva de Callado, Ana Arruda. Finalmente, o autor maranhense, ex-embaixador do Brasil na Unesco, teve sua memória destacada por Cláudio Aguiar, presidente do Pen Clube do Brasil, que, assim como Ana, também se deslocou da capital fluminense especialmente para o evento.

Os trinta anos do falecimento do poeta Carlos Drummond de Andrade foram lembrados em excelente conferência do juiz e filósofo Fernando José Armando Ribeiro, que circula com a mesma desenvoltura pelo Direito e pela Literatura. Os quarenta anos sem Clarice Lispector (a autora brasileira mais estudada nos Estados Unidos hoje) foram recordados em memorável palestra da professora Luciana Pimenta, da PUC Minas, ela também uma intelectual de fina sensibilidade, com a poesia à flor da pele. Os quarenta anos sem Carolina Maria de Jesus ganharam visibilidade com a arguta intervenção da professora doutora Ivete Lara de Camargos Walty, exímia estudiosa da chamada ‘literatura marginal’. Os vinte anos sem o antropólogo Darcy Ribeiro mereceram preciosa exposição da professora Haydée Ribeiro Coelho, da UFMG, que focalizou sobretudo os anos que o mineiro de Montes Claros passou no exílio. Os dez anos da morte de Dom João Resende Costa, antigo membro da Academia, deram o tema do pronunciamento de seu sucessor na cadeira de número onze, Dom Walmor Oliveira de Azevedo. O legado literário da família Lisboa foi homenageado pelo discurso do economista Edmar Bacha, recentemente empossado na Academia Brasileira de Letras. Sua tia, Henriqueta Lisboa, foi a primeira mulher eleita para a Casa de Alphonsus de Guimaraens, em 1963, quatorze anos antes que Rachel de Queiroz se elegesse para a Casa de Machado de Assis. Irmã de Henriqueta, a educadora Alaíde Lisboa, foi a primeira mulher a assumir o mandato de vereadora em Belo Horizonte, em 1949, apenas dezessete anos depois da conquista do direito ao voto pelas mulheres. Falecida aos cento e três anos, Alaíde escreveu dois clássicos da literatura infantil brasileira: “A Bonequinha Preta” e “O Bonequinho doce”. Irmão das duas, José Carlos foi professor de língua e literatura espanhola na antiga Universidade do Brasil, no Rio, a atual UFRJ. Marido de Alaíde, o mítico professor José Lourenço de Oliveira foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (a FAFICH) da UFMG.

Uma das cerimonias mais emocionantes do ano, no entanto, foi a que se dedicou aos cinco anos da morte do acadêmico Bartolomeu Campos de Queiroz, cuja obra continuará encantando os leitores de todo o Brasil, por muito tempo.