Nada melhor que começar o ano escrevendo sobre livros. Sobretudo sobre os que são capazes de ativar a máxima potência mental dos leitores, pela inteligência e o engenho com que são escritos. Não tenho a menor restrição a qualquer tipo de literatura, seja de onde for, mas hoje optei por não recorrer a nenhum autor estrangeiro. Não será preciso. Nos últimos vinte anos, o Brasil foi presenteado com uma bela safra de novos escritores, já devidamente saudados pelos críticos mais antenados, como Beatriz Resende e Leyla Perrone-Moisés. Vale anotar nomes como os de Michel Laub, Daniel Galera, Ana Paula Maia, Joca Reiners Terron, Julián Fuks e João Paulo Cuenca. Minas também pode se orgulhar de sua atual geração, já que conta com talentos como os de Carlos de Brito e Mello, Laura Cohen e Marcílio França Castro (além de Ana Elisa Ribeiro, Sérgio Alcides e Ana Martins Marques, na Poesia). Essa coluna, porém, será dedicada à impressionante escritora carioca Elvira Vigna e a uma de suas criaturas mais fascinantes: Shirley Marlone.

Shirley aparece em um dos livros mais importantes de Elvira, “Deixei ele lá e vim” (Editora Companhia das Letras, 2006, 152 páginas), na função de narradora. Por meio dela é apresentada ao leitor uma série de personagens curiosíssimos, como a garçonete homossexual Meire, o hóspede Antônio, ‘a mulher dos pezinhos’ e Tião, o agenciador de ‘modelos’. Também sob a sua perspectiva é possível conhecer a história de Dô (Maria das Dores ou Dorothy), que perde a vida misteriosamente, de madrugada, na praia em frente a um hotel de luxo perto da comunidade do Vidigal, no Rio de Janeiro. Ao contrário do que inicialmente pode parecer, não se trata de um enredo policial. Como em outras obras da autora (refiro-me a “Às seis em ponto” e a “O assassinato de Bebê Martê), as mortes enigmáticas são apenas mais um ingrediente da trama. Os temas principais da produção literária de Elvira continuam a ser a dificuldade de comunicação entre os seres humanos, o vazio e a solidão da vida nas grandes cidades brasileiras e as complexas relações entre homens e mulheres.

Tendo lido os seus dez romances (ganhadores de inúmeros prêmios, entre os quais o concedido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Nada a dizer”), cada vez mais admiro a habilidade e a coragem com que Elvira se dedicou a construir a personagem de Shirley Marlone. Ambígua, mentirosa confessa, dividida entre a imaginação e a memória, possuída por um permanente sentimento de inadequação, não se sabe ao certo o sexo biológico de Shirley, já que vários indícios colhidos ao longo da leitura permitem caracterizá-la como transexual. Por meio da voz de Shirley, a escritora consegue abordar questões atuais e polêmicas, de modo criativo e original, como as que influenciam, nos dias de hoje, as reflexões sobre a vivência da sexualidade, tema a que têm se dedicado intelectuais do porte de Judith Butler e Teresa de Lauretis (sempre mencionadas na fortuna crítica sobre a obra de Elvira). Como opinou a jornalista Camila von Holdefer, da Folha de S. Paulo, em texto publicado por ocasião do falecimento da escritora, ela se tornará, em breve, ‘autora incontornável’ da literatura brasileira.