Entrevista originalmente publicada
no número 23 (edição de dezembro de 2017)
da revista Memória Cult.

 

Mineiro de Belo Horizonte, o jornalista Rogério Faria Tavares é casado com a terapeuta Sabrina Tunes, com quem tem dois filhos: Carlos, de quase seis anos, e Gabriela, de um. A graduação e o Mestrado em Direito na UFMG antecederam o período passado na Espanha, quando tirou o Diploma de Estudos Avançados em Direito Internacional e Relações Internacionais. A larga experiência na imprensa inclui passagens por diversos veículos de comunicação, como a Rede TV! e a Rede Minas. Atualmente, Rogério é cronista semanal do “Diário do Comércio” e editor do site www.literaturanainternet.com.br. Em 2016, passou a ocupar a cadeira de número oito da Academia Mineira de Letras. Em maio desse ano, tomou posse no Pen Clube do Brasil, uma das mais exclusivas entidades literárias do país. Desde junho, preside o BDMG Cultural, o instituto cultural do Banco de Desenvolvimento do estado.

 

1 – Como começou o seu interesse pela Cultura?

Desde cedo, via minha mãe pregar o amor à leitura e aos livros. Ela lecionou por trinta anos. Formou gerações. Militou sempre em favor da literatura brasileira e do hábito de ler. Meu pai também era leitor voraz. Gostava tanto de Filosofia quanto de Religião, História e Ciência Política. Sempre comprou muitos livros, que se espalhavam por todos os cômodos da casa. É  o que faço com meus filhos hoje: incentivo esse contato desde cedo. Também procuro levá-los ao teatro, ao circo e a espetáculos de dança. Se os eventos são em locais públicos, ao ar livre, melhor ainda, porque isso permite que eles circulem pelas ruas, e convivam num ambiente mais plural. A Cultura é a alma de um povo. É ela a responsável  por conferir a sua identidade, por alimentar seus sonhos e suas aspirações. É também motor do desenvolvimento econômico e social, movendo importantes cadeias produtivas. Há muita gente que vive do que ela produz.

 

2 – Sua trajetória profissional registra o interesse pelo Direito e pela Comunicação. Como você conciliou essas duas dimensões?

Cursar Direito na UFMG foi algo que acrescentou muito à minha formação pessoal e intelectual. Tive professores memoráveis, como Elza Maria Miranda Afonso, Misabel de Abreu Machado Derzi e João Baptista Vilela, irmão do grande contista Luiz Vilela, de Ituiutaba. Depois, trabalhei com o professor Leonardo Nemer Caldeira Brant no CEDIN, o Centro de Direito Internacional, onde também aprendi muito. A equipe contava com nomes excelentes, como os hoje professores Jorge Mascarenhas Lasmar e Leonardo Estrela Borges. No Mestrado, uni as duas vertentes da minha atuação. Escrevi uma dissertação intitulada “Do direito de Comunicar na sociedade internacional”, sobre como a Comunicação é bem jurídico reconhecido globalmente. Mais que a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa, o direito à Comunicação também supõe o acesso democrático aos meios de comunicação. Quando fundei a Organização Não governamental TVer em Minas o propósito era divulgar a importância da Comunicação como direito de todos. Fizemos muitos eventos naquela época, trazendo ao estado importantes intelectuais que refletem sobre esse tema, como a psicanalista Maria Rita Kehl e os professores Eugênio Bucci, da USP, e Arthur Venício Lima, da UnB.

 

3 – E os eventos literários, começaram como?

As pessoas têm manifestado um interesse crescente pela literatura, o que se pode comprovar pelo sucesso das feiras e das festas literárias. Elas querem que a literatura faça parte da vida delas. A literatura é um canal para que as pessoas vivam uma vida melhor, mais rica, mais bonita. Atento a esse fenômeno, quando trabalhava como supervisor de Relações Institucionais da Fiat Chrysler para a América Latina, recebi total apoio para criar, em parceria com a Academia Mineira de Letras (então presidida pelo excelente Olavo Romano), o projeto “O autor na Academia”. O evento era mensal, gratuito e aberto ao público. Os mais importantes escritores brasileiros participaram do projeto, como Geraldo Holanda Cavalcanti, Arno Wehling, José Murilo de Carvalho, Zuenir Ventura e Mary del Priore. Tomei gosto e continuei a realizar esses encontros também em 2016 e em 2017, já na condição de acadêmico e Reitor da Universidade Livre da Academia.

 

4 – Como foi o seu ingresso na Casa de Alphonsus de Guimaraens?

Um grupo de amigos acadêmicos se articulou para que eu me candidatasse à vaga do saudoso poeta Milton Reis. Sensibilizado, acolhi os argumentos que eles apresentaram em favor dessa postulação. O clima de acolhimento e generosidade que encontrei durante minha campanha foi motivador. Jamais me esquecerei da visita que fiz ao então decano da AML, o historiador Oiliam José, que me recebeu com apreço paternal. Assim também se passou com os outros confrades e confreiras, cuja trajetória respeito e admiro. Tomei posse decidido a tornar a programação da Academia mais  intensa e mais relevante. A cidade gosta da AML. E tem boas razões para isso. A entidade foi fundada em 1909 por doze escritores de Juiz de Fora. Venceu todos os obstáculos e atravessou o século vinte inteira e ativa.

 

5 – Graças também a alguns ótimos presidentes…

Sem dúvida. José Oswaldo de Araújo, ex-prefeito de Belo Horizonte, foi um deles. Vivaldi Moreira foi outro, responsável por dotar a Academia de sede digna, à altura de suas tradições e de suas contribuições à Cultura do estado. Olavo Romano marcou época. Abriu a Casa para os jovens, a Universidade, o mundo corporativo, os artistas. Integrou a AML ao Circuito Liberdade. Agregador e de convivência amena e fraterna, simboliza bem o que é portar-se com espírito acadêmico, que é o espírito da tolerância, do respeito pelas diferenças. A presidente Elizabeth Rennó tem conduzido a Casa com serenidade e firmeza, num momento de grandes dificuldades econômicas. É uma mulher sábia, valente e de grande compreensão do papel da Academia no cenário cultural de Minas Gerais. Soma-se a tudo isso a alegria de termos, pela primeira vez na história, uma mulher no comando da Academia, o que é louvável. Henriqueta Lisboa entrou na AML antes que Raquel de Queiroz entrasse na Academia Brasileira de Letras, o que se deu somente em 77. Fomos pioneiros. Depois tivemos outras grandes acadêmicas, como Alaíde Lisboa, que já se foi, e Maria José de Queiroz, Carmen Schneider e Yeda Prates Bernis, que continuam entre nós, felizmente.

 

6 – Na sua opinião, como a Academia sobreviverá ao século vinte e um, marcado pelas tecnologias digitais, as redes sociais e a aceleração do tempo?

Se a Academia souber ler o seu tempo, como vem sabendo fazer, ela sobreviverá com altivez e ótima saúde, conciliando o apreço pelas tradições ao irresistível apelo do novo. A Academia é testemunha da história de Minas. Abriga dez importantes coleções de livros e documentos, entre as quais estão as doadas por Eduardo Frieiro, Nelson de Senna, Vivaldi e Edison Moreira. Esse acervo será, em breve, posto à disposição do público, como deve ser.  Além disso, a Academia é um Museu-Casa, já que está instalada no Palacete Borges da Costa. A ideia é abri-lo para visitas guiadas, algo que seria muito interessante para os estudantes e os turistas. A Academia é um centro produtor de reflexão e debate. Sua revista, exemplarmente editada pelo confrade Manoel Hygino, é publicada há mais de oito décadas. Finalmente, a AML oferece aos cidadãos de Minas uma intensa agenda de cursos, oficinas e conferencias.

 

7 – Você também é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Como avalia a importância dele para a Cultura do Estado?

O Instituto foi fundado em 1907, quando Belo Horizonte contava com apenas dez anos de idade. Nasceu para preservar a memória de Minas, inspirado no exemplo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de 1838, hoje brilhantemente presidido por Arno Wehling, responsável maior por mantê-lo ativo e relevante. Ao longo do século, a Casa de João Pinheiro realizou inúmeros eventos para cumprir os seus objetivos. Sua revista aborda temas fundamentais para o conhecimento da nossa história. Ao lado de tudo isso, é um espaço privilegiado para conviver com intelectuais importantes, reunidos em torno de uma causa comum.

 

8 – E o BDMG Cultural? Como tem sido a experiência de presidi-lo?

O BDMG Cultural foi idealizado por Carlos Alberto Teixeira de Oliveira. Em trinta anos, teve a sorte de ser conduzido por notáveis gestores, como, entre outros, o meu antecessor, João Paulo Cunha, um dos intelectuais mais refinados do estado, homem de pensamento livre e independente. O BDMG Cultural tem uma equipe séria, madura, comprometida com a Cultura. Mais que isso: apaixonada pela Cultura. Os programas a que se dedica desfrutam de continuidade e credibilidade. O Prêmio BDMG Instrumental já tem 18 anos. O Coral BDMG é reconhecido em todo o Brasil e até no exterior. A galeria de arte da instituição foi ocupada, ao longo do tempo, por artistas de enorme reputação. Minha responsabilidade é grande. Felizmente, o presidente do Banco, professor Marco Aurélio Crocco, é um grande incentivador das nossas atividades, ciente do potencial que a Cultura tem na indução ao desenvolvimento. Não é outra a visão do secretário da Cultura, o confrade Angelo Oswaldo de Araújo Santos, e do governador Fernando Pimentel.

 

9 – Como você vê a Revista “Memória Cult”?

“Memória Cult” é mais um belo empreendimento de Eugênio Ferraz, um dos líderes da Cultura em Minas, meu colega no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. A revista é bonita e oferece leitura instrutiva e agradável. Seus articulistas são sempre de alta qualidade, e proporcionam aos leitores uma visão sofisticada e profunda de temas variados, o que me agrada muito. O Brasil tem carência de boas publicações na área cultural. “Memória Cult” ajuda a suprir essa lacuna. Que tenha vida longa!

 

Entrevista originalmente publicada
no número 23 (edição de dezembro de 2017)
da revista Memória Cult.