Adoro ler biografias. Deliciei-me com a de Assis Chateubriand, de Fernando Morais,  que recuperou um personagem essencial para o entendimento da história da imprensa no Brasil, no século vinte. Do mineiro de Mariana também é a obra sobre o mago Paulo Coelho, cuja vida parece ficção (não tenho qualquer preconceito em relação ao autor de “O Alquimista”. Dono de grande poder de comunicação, vendeu milhões de exemplares em todo o planeta. É um fenômeno que precisa ser respeitado e, sobretudo, compreendido). Ruy Castro seduziu a todos quando publicou “O anjo pornográfico”, sobre a trajetória do dramaturgo Nelson Rodrigues. A impressionante narrativa sobre Lima Barreto, de Lilia Moritz Schwarcz, merece igual destaque, tendo ganhado o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2017.  É a pesquisa mais completa sobre o autor de “O triste fim de Policarpo Quaresma” desde o trabalho lançado em 1952 por Francisco de Assis Barbosa.

O mercado editorial brasileiro não frustra quem gosta desse gênero literário. Agora, especialmente, quem está de férias pode aproveitar. Nesse janeiro, em todas as vitrines, estão os livros sobre as estrelas do showbiz brasileiro, como Jô Soares (de Matinas Suzuki Jr), Sílvio Santos, que mereceu duas produções (uma de autoria de Fernando Morgado e outra da lavra de Márcia Batista e Anna Medeiros) e Hebe Camargo (de Artur Xexeo). Em breve, ficarão prontas as biografias de Carlos Drummond de Andrade (escrita por Humberto Werneck), e  de Tiradentes (escrita por Lucas Figueiredo).

Hoje, no entanto, quero falar de um texto que me tocou profundamente, tanto pela personalidade por ele retratada quanto pelo modo com que foi escrito. Trata-se de “Lúcia – uma biografia de Lucia Miguel Pereira”, de Fabio de Sousa Coutinho (Brasília, Outubro Edições, 2017, 178 páginas). Lançado em Belo Horizonte durante sessão na Academia Mineira de Letras, no ano passado, o volume presenteia o leitor brasileiro com a história de uma das mais relevantes críticas literárias, ensaístas e escritoras do país. Conhecida sobretudo por ter escrito a biografia de Machado de Assis (em 1936) e a do poeta Gonçalves Dias (em 1943), Lúcia assinou estudos fundamentais sobre a literatura brasileira, como o “Prosa de Ficção – de 1870 a 1920”, editado pela José Olympio em 1950 e o “Cinquenta anos de literatura”, publicado no âmbito da coleção Cadernos de Cultura, do então Ministério da Educação e Saúde, em 1952, além de ter organizado importante obra sobre o português Eça de Queiroz, por ocasião de seu centenário.

Filha do famoso médico Miguel Pereira, morto, precocemente, aos quarenta e sete anos, Lúcia foi a segunda esposa de Octavio Tarquínio de Sousa, ministro do Tribunal de Contas da União e importante historiador. O casamento foi  interrompido depois de vinte anos, de modo brutal, pelo acidente aéreo que os vitimou, em 1959. Seus corpos foram reconhecidos por familiares entre os escombros. Estavam de mãos dadas. A história emociona ainda mais quando se sabe, pela pena do autor, que sua biografada escapou de outro acidente aéreo, trinta e um anos antes, no dia do retorno de Alberto Santos Dumont ao Rio de Janeiro. Fabio conta tudo isso no seu estilo de sempre: elegante, limpo, claro, direto. Leitura imperdível.