Sei que atualmente nem sempre é fácil sair de casa para ir ao cinema. Às vezes, de fato, é até perigoso (se chove muito, por exemplo, circular por Belo Horizonte é um risco). Em várias ocasiões, é mais aconselhável assistir a uma série pela tevê a cabo ou pela internet. Não discordo. Hoje em dia há opções sensacionais para quem prefere o conforto e a segurança do próprio lar. Recentemente, vi vários episódios de ‘The Crown’ e de ‘Call the midwife’. Adorei. Antes, ‘Downton Abbey’ já havia conquistado a minha atenção. Divertido, com “Jane, the virgin” garante boas risadas. A verdade, no entanto, é que, se as condições são favoráveis, sempre me animo a sair.

E foi assim desde cedo. Na minha infância, ia muito ao Cine Jacques, na Rua dos Tupis, e ao Palladium, na Rua Rio de Janeiro. O Metrópole, demolido em 83, e o Acaiaca, no mítico edifício da Avenida Afonso Pena, também eram pontos de referência. Os cinemas nos shopping centers chegaram com os anos oitenta e a eles também aderi, sem o menor problema.

Outro dia alguém escreveu sobre o Savassi Cineclube, a importante sala de projeção que ficava na rua Levindo Lopes. Era seu frequentador assíduo. A programação oferecia um cardápio sofisticado, com o que tinha de mais apurado no chamado ‘cinema de arte’. Ainda que as instalações não fossem das mais confortáveis (como as das chamadas salas ‘premium’ ou ‘vip’ de hoje), os produtos em exibição eram tão bons que compensavam tudo. Sou até hoje gratíssimo aos seus idealizadores. O Savassi era uma janela para o mundo, uma possibilidade de conhecer realidades distantes. Por lá passavam os diretores escandinavos, iranianos, japoneses, alemães… O Usina também teve esse poder. O charme de sua sede, na Rua dos Aimorés, permanece vigoroso na minha memória. O café e a livraria completavam o cenário, ideal para o sábado à noite ou o final do domingo. Heroicos, o Cine Belas Artes e o 104 são os encarregados, atualmente, de proporcionar ao público da cidade alguns bons momentos de entretenimento de alta qualidade. A Sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes, também merece uma menção especial, sendo mais um lugar em que pode desfrutar do melhor do audiovisual produzido no mundo. E em Belo Horizonte. Recentemente, ali assisti a dois filmes que me chamaram bastante atenção: ‘Nós determinamos o que somos pelo que fazemos’, dirigido por Clara Antunes e produzido por Titi Rivotril, e ‘Sigo viva’, de Letícia Ferreira, ambos vencedores da última edição do prêmio concedido pelo BDMG Cultural e pela Fundação Clóvis Salgado a curtas metragens de baixo orçamento.

No primeiro, o espectador acompanha o dia a dia de uma transexual da região metropolitana da capital mineira. É ela mesma quem narra a sua história e apresenta o seu cotidiano, os seus amigos, a sua família. Vale a pena. No segundo, o enredo aborda o tema do abuso sexual, do ponto de vista de uma jovem estudante, vítima do assédio de um colega de infância. Saí dos dois enriquecido. Nada mais benéfico que entrar em contato com abordagens originais, instigantes, criativas, corajosas. A mente fica mais aberta, os horizontes se alargam, a inteligência se sente estimulada.