Como espectador da série “The Crown”, sobre o reinado de Elizabeth II, da Inglaterra, fiquei impressionado com os episódios relativos ao surgimento e à evolução de certa rivalidade entre a monarca e sua irmã Margareth, proibida pela rainha de casar-se com o homem que amava. O fato acabou gerando consequências devastadoras para a vida da princesa. Percorrendo a história, é possível comprovar que a relação entre irmãos povoa o imaginário da humanidade desde tempos imemoriais. Uma breve análise do Gênesis, o primeiro livro do Antigo Testamento, confirma sua força e longevidade. A Bíblia conta, entre outras, as histórias de Abel e Caim, Esaú e Jacó, José do Egito e seus irmãos. Tema clássico da literatura universal, inspirou os autores das tragédias gregas, Shakespeare,  Dostoievsky… A literatura brasileira também já se baseou em tal convivência para produzir obras fundamentais, como “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis, que apresentou ao leitor os gêmeos Pedro e Paulo. “Dois irmãos”, de Milton Hatoum, recentemente adaptado para a televisão, tornou conhecidos Yaqub e Omar, de família libanesa. Escrita pelo excelente Raduan Nassar, vencedor do Prêmio Camões de 2016, “Lavoura Arcaica”, por sua vez, não é sobre conflitos entre irmãos, pelo contrário. Trata do tabu do incesto, já que aborda o enlouquecido amor de André por Ana. Seja como for, o assunto nunca sai de moda, atraindo a atenção de grandes públicos, talvez por fazer parte, com igual intensidade, da vida real.

A crônica política brasileira, por exemplo, registra um caso célebre de oposição entre irmãos, o que envolveu dois membros da família Collor de Mello: Fernando e Pedro. Antes deles, e no sentido contrário, Benjamim Vargas, o Bejo, foi sempre – e até o fim –  aliado fiel do irmão Getúlio. No mundo artístico, há irmãos que encantam o país pelo seu brilho e pela harmonia com que se dão, como Caetano Veloso e Maria Bethânia, e Chico Buarque e Miúcha, sem falar no trio que o grande Dorival Caymmi e sua Stella Maris legaram ao país: Nana, Danilo e Dori. Às vezes, a genialidade premia a prole de um mesmo casal, como ocorreu com os irmãos João Cabral de Melo Neto e Evaldo Cabral de Mello, ícones da cultura brasileira.

Em Minas, os irmãos Dijon de Moraes, reitor da UEMG, e Paulinho Pedra Azul, cantor e compositor, se unem aos filhos de Salomão Borges e Maria Fragoso (Lô, Márcio, Marilton e Telo) na comprovação de que há irmandades preciosas no estado. Mais um belo caso é o da numerosa família Romano, que gerou, entre outros, os escritores Olavo e Alcea. Se quisermos recuar um pouco mais no tempo, será preciso mencionar Alphonsus de Guimaraens Filho (cujo centenário de nascimento celebraremos nesse ano, na Academia Mineira de Letras) e João Alphonsus.

No plano familiar, tenho a sorte de contar com um querido irmão, Rodrigo, músico, com quem compartilho pensamentos e sentimentos. Em casa, há exatos um ano e quatro meses, meu primogênito Carlos conquistou a experiência da fraternidade, com a chegada de Gabriela, o tesouro que alegra e encanta o nosso lar.