A Praça da Liberdade sempre foi um dos mais tradicionais centros de convivência de Belo Horizonte. Da época da fundação da capital, no final do século dezenove, ela surgiu como o coração do seu poder político e administrativo, reunindo os prédios das secretarias de estado e a sede do governo. Em 1937, também ganhou o Palácio Cristo Rei, concebido sob as ordens de Dom Cabral e projetado pelo arquiteto italiano Raffaello Berti para abrigar a Cúria Metropolitana e a residência oficial do Bispo. Já o Edifício Niemeyer foi construído em 1955 por iniciativa de Antonio Joaquim e de sua esposa, a escritora Lúcia Machado de Almeida, autora de dois dos livros que mais marcaram a minha vida de menino: “O escaravelho do diabo” e “O caso da borboleta Atíria”, para os quais ela contou com a assessoria de um sobrinho querido, desde cedo apaixonado pelos insetos: o professor Angelo Machado, da UFMG, meu confrade na Academia Mineira de Letras. Em seu apartamento, o casal promovia os famosos saraus literários a que acorriam os intelectuais mais importantes de Minas e do Brasil. Em pouco tempo, o prédio se transformou num dos ícones da cidade.

Também assinado pelo arquiteto que fez a Pampulha e Brasília, outro lugar encantador da praça é o prédio da Biblioteca Pública, comandada com brilho por Lucas Guimaraens, pertencente a uma das mais ilustres famílias literárias do Brasil. Passando em frente a ele, recordo-me imediatamente de cenas da infância, quando costumava frequentar a sua Sala de Multimeios, onde era oferecido o famoso curso de teatro do professor Helvécio Ferreira.

A história da praça é longa. Nela funcionou por muitos anos o famoso ‘footing’, momento com que as moças e os rapazes das gerações passadas contavam para flertar e, eventualmente, começar um namoro. Cantada em prosa e verso, esse cartão postal de Belo Horizonte aparece na obra de Pedro Nava, Drummond e Fernando Sabino, entre outros. Ela também foi o lugar da realização da ‘Feira Hippie’, hoje na Avenida Afonso Pena. Embora importante como núcleo de exposição da gastronomia, da arte e do artesanato produzidos em Minas, a Feira não se adequava bem ao espaço, pondo em risco o seu verde e o patrimônio histórico. O acertado gesto de retirá-la de lá coube a um amigo: Roberto Borges Martins, então administrador da Regional Centro Sul.

O tempo passou e a história da praça foi seguindo o seu curso. Atualmente, ela atrai milhares de visitantes por conta das atividades culturais que passou a promover. Na semana passada, conferi o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE) na sede do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) e gostei demais. Carlos se divertiu a valer, interagindo com diversas das obras de autoria de artistas de todas as partes do mundo. Pesquisando sobre a trajetória do festival, descubro que ele existe desde o ano 2000 e que é o maior evento de arte e tecnologia do país.

Por tudo isso, às vezes me pergunto: o que seria das cidades sem as suas praças e o tanto de vida que há nelas? Restariam os passeios pelos shoppings, muito bons em alguns contextos, mas menos aconselháveis quando se quer apenas um pouco de ar, uma caminhada entre chafarizes e jardins, sem a necessidade de comprar nada, como nos tempos em que era bem mais simples ser feliz.