Lançados pelo BDMG Cultural há poucos dias, os prêmios de fomento à música feita em Minas Gerais homenageiam dois importantes artistas do estado, ambos falecidos precocemente. Marco Antônio Araújo se foi em 1986, com apenas trinta e seis anos, no auge de uma bela carreira como compositor e instrumentista. Um dos primeiros contratados da nossa Orquestra Sinfônica, ainda em 77, tocava violão clássico e violoncelo. Morando na Inglaterra, entrou em contato com a obra dos Beatles e de Pink Floyd, Led Zeppelin, Deep Purple e Gênesis, algumas das influências que sofreu em seu processo de formação. De volta ao país, estudou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tendo sido aluno de Jacques Morelenbaun. Lançou quatro discos, o último deles intitulado “Lucas”, em homenagem a um de seus filhos. Os vinis foram fruto de produção independente, já que não era fácil naquele tempo conseguir o apoio das grandes gravadoras para a música instrumental (o cenário melhorou?). Viabilizou-os criando o próprio selo: Strawberry Fields. Para divulgá-los, Marco Antônio percorria diversas cidades do interior, fazendo shows e falando de sua técnica e de sua arte. O prêmio que recebe o seu nome existe há quinze anos, perenizando o seu legado. Agora, o vencedor levará para casa não quatro mas dez mil reais, atualização que faz justiça à altíssima qualidade dos profissionais da área.

O Prêmio Flávio Henrique, também de dez mil reais, é criação de 2018 e será concedido ao melhor CD de canções produzido no ano passado. Flávio faleceu em janeiro, em decorrência da febre amarela, aos quarenta e nove anos. Sua morte chocou e entristeceu o meio cultural de Minas Gerais e do Brasil. Nascido em Belo Horizonte,  começou cedo. Sua mãe, Delza, era professora de música na Escola Estadual Pandiá Calógeras. Um dia, presenteou o filho com um disco de Toninho Horta. Flavio dizia que esse foi um dos momentos fundamentais de sua formação. Encantado pelo trabalho do artista, retirou os instrumentos dos armários da casa e se dedicou a tocá-los. Autodidata, em pouco tempo dominou os segredos do violão, do cavaquinho e do piano. Ainda bem jovem, formou o grupo “Candeia”, com Robertinho Brant e Serginho Silva, entre outros. Começou a compor e a gravar. Entre seus álbuns estão “Primeiras Estórias”, de 95, lançado pela gravadora “Velas”, de Ivan Lins; “Livramento” (2002); “Presépio Encantado”, feito para crianças, em 2004; “Sol a girar”, de 2006, e “Pássaro Pencil”, de 2008. Também compôs marchinhas memoráveis, participando intensamente do grupo responsável pelo vigoroso ressurgimento do Carnaval da capital mineira, fenômeno ainda recente. Nos últimos anos, notabilizou-se como bom gestor, tendo sido diretor da Rádio Inconfidência e presidente fundador da Empresa Mineira de Comunicação.

Cada um a seu modo, Marco Antônio e Flávio mobilizaram a cena musical da cidade. Deixaram contribuição inestimável, que merece ser lembrada. Alguns versos de “Casa aberta”, que Flávio compôs junto com Chico Amaral (e que ficaram famosos na voz de Milton Nascimento), têm força poética impressionante: “Lua luou, vento ventou, rio correu pro mar. Foi beijar as areias de lá”.