Percorro com o professor Jacyntho Lins Brandão, um dos mais importantes intelectuais brasileiros, os cômodos pelos quais se distribui o acervo bibliográfico e documental da Academia Mineira de Letras, no Palacete Borges da Costa, na rua da Bahia. Fundador e Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos, professor de Língua e Literatura Grega desde 1977, diretor por duas vezes da Faculdade de Letras e vice-reitor da Universidade Federal no reitorado de Tomaz Aroldo da Mota Santos, Jacyntho se interessa pelo belo empreendimento ora em curso na Casa de Alphonsus de Guimaraens: a organização, em bases adequadas, da Coleção Eduardo Frieiro, antigo ocupante da cadeira de número sete, professor catedrático de Literatura Espanhola e de Literatura Hispano-Americana na UFMG e autor de clássicos da literatura produzida em Minas Gerais, como “Feijão, Angu e Couve”, ensaio lançado pela Editora Itatiaia, em 1950. Operada por profissionais altamente qualificados, a empreitada é complexa e trabalhosa, mas apaixonante. A equipe tem se deparado com documentos valiosos e ainda pouquíssimo divulgados. Entre os que encontrou está uma carta de Juscelino Kubitscheck a Frieiro, que foi seu cliente. Nela, o ex-presidente informa que abandonará definitivamente a Medicina.

A Academia também abriga os livros e documentos deixados por Vivaldi e Edison Moreira, Nelson de Senna, entre outros. A intenção é organizá-los devidamente para facultar o pleno acesso público ao que contêm. Dois confrades experientes no manejo de acervos – Amilcar Martins Filho e Caio Boschi – são os supervisores da atividade. Será uma alegria quando a instituição tiver condições de atender, comme il faut, a  estudantes e pesquisadores interessados no que ela tem a oferecer. Essa é uma das funções da entidade, fundada em 1909, em Juiz de Fora, para promover a Língua Portuguesa e a Literatura.

Outra missão é ofertar à cidade uma programação rica e variada, com entrada franca. É o que faz a Universidade Livre, coordenada, no passado, entre outros, por Dario Faria Tavares, José Crux Rodrigues Vieira e Elizabeth Rennó. As conferencias são sempre gratuitas. O interesse tem sido crescente. É um prazer ver o auditório cada vez mais frequentado. Não há razão para que uma Academia exista se ela não se abrir para o mundo, se não partilhar com as pessoas o repertório que é capaz de acumular.

Nos tempos de hoje, já não cabe mais ver as Academias de Letras como locais para o exercício tolo e frívolo da vaidade ou como um simples adorno para biografias. No mundo contemporâneo, elas são centros produtores e difusores de conhecimento, reflexão e crítica, devendo ser integradas por quem se dispõe a atuar ativamente nesse sentido. A Academia Brasileira de Letras já entendeu isso há algum tempo e vem estruturando vários ciclos importantes de debates em sua sede, no Rio de Janeiro. Em Minas, a Academia tem se afirmado cada vez mais como um núcleo dinâmico de convivência fraterna e saudável em torno da cultura e das artes, da história e da memória, valores cada vez mais necessários na sociedade brasileira de hoje, tão intolerante e tão violenta.