Lançado na quarta-feira na Casa de Leitura da Biblioteca Nacional, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, “Discurso para desertos” é o décimo oitavo livro da poeta e musicista Denise Emmer. Gestado ao longo dos últimos dois anos, mereceu prefácio do confrade Sérgio Fonta, da Academia Carioca de Letras. Entre os assuntos abordados dessa vez por Denise estão a finitude, as perdas e a violência. Seu irmão caçula, falecido ainda na infância, mereceu poema especial: “Pequena elegia para Marcos”. Nascida em 1958, ela começou a compor quando tinha apenas dez anos. Ao longo de sua carreira, Denise musicou textos de autores como Pedro Lyra e Moacir Félix. O CD “Cinco movimentos e um soneto”, de 95, é todo de poemas de Ivan Junqueira a que ela adicionou melodias. São de sua autoria várias canções que ficaram famosas por integrarem as trilhas sonoras de ‘campeões de audiência’ como “Bandeira Dois”, “Assim na terra como no céu”, “Bravo!” e “Sinhá Moça”. “Allouette”, em francês, foi lançada em compacto simples em 1980, vendendo mais de trezentas mil cópias e rendendo à sua autora o disco de ouro. Foi o tema musical do par romântico formado por Carina (Elizabeth Savalla) e André (Tony Ramos), de “Pai Herói”, exibida pela Rede Globo em 79. Lembrada até hoje pelos telespectadores, tem milhares de visualizações no you tube. Outra composição de sua lavra é a belíssima “Lavadeiras”, que aparecia em “Coração Alado”, da mesma emissora, numa época em que dois dos autores que reinavam no mundo das telenovelas eram exatamente os pais de Denise: Janete Clair e Dias Gomes.

Dias Gomes fez história na dramaturgia brasileira, tanto no teatro quanto na televisão. Com a memorável peça “O pagador de promessas”, de 1960, conquistou para o Brasil a primeira indicação para o Oscar e a Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França. Para a telinha, criou “O Bem Amado”, de 1973, a primeira telenovela a cores do país. A trama apresentou ao público tipos ainda hoje guardados na memória afetiva dos brasileiros. Como esquecer Odorico Paraguaçu, o prefeito de Sucupira, imortalizado por Paulo Gracindo?  Na cidade fictícia também viviam Zeca Diabo, Dirceu Borboleta e as irmãs Cajazeiras. Engenhoso, o novelista conseguia focalizar traços constitutivos da cultura política brasileira com humor e ironia, driblando a censura. Fez o mesmo em “Saramandaia”, três anos depois, quando apresentou ao país personagens como a Dona Redonda, vivida por Wilza Carla, cujo corpo explodiu no último capítulo; João Gibão, interpretado por Juca de Oliveira, e o professor Aristóbulo Camargo, vivido por Ary Fontoura.

Janete Clair foi soberana durante todo o período em que atuou como autora de suas popularíssimas telenovelas. Mineira da cidade de Conquista, filha de libaneses, dominou como poucos a arte do folhetim. O país pré Internet parava para acompanhar suas narrativas, de que alguns dos exemplos mais famosos são “O Astro”, “Selva de Pedra” e “Pecado Capital”. Exímia contadora de histórias, ainda hoje é referência de qualidade para toda a nova geração de autores. Mas a obra de Janete, tão  pouco celebrada, merece uma coluna exclusiva, que prometo para futuro breve.