É impressionante como é difícil aceitar a morte, a única certeza que se tem na vida. Ela assusta, assombra, amedronta, intimida…  É, no entanto, a expressão mais perfeita da condição humana, que é frágil, precária, estando sempre por um fio, apesar de todas as ilusões de força, poder, grandeza e imortalidade geradas pelo ego, pela mente, pela cultura, pela medicina, pelo mercado…

 

Atrevo-me a especular: talvez o extremo mal-estar em relação à finitude seja a comprovação do quanto amamos a vida, saboroso fruto colhido de bondosa árvore divina. Ela pode ser dura, perigosa, mas não há nada melhor… Há, no entanto, quem diga que os que vivem intensamente não têm medo de morrer. Acho que existe de tudo. Cada caso é um caso. Do quase nada que sei, o que consegui recolher até agora foi uma pista que os antigos já haviam descoberto e que, com o passar do tempo, foi popularizada pela filosofia e pela arte: carpe diem.

 

A famosa frase em latim, extraída de poema de Horácio, vem sendo compreendida como algo próximo a ‘colha o dia’ ou ‘aproveite o momento’, sabedoria também contida no Gilgámesh, texto épico do século treze antes de Cristo, escrito na Mesopotâmia (atual Iraque) e traduzido recentemente do acádio para a língua portuguesa por Jacyntho Lins Brandão, em lançamento da Editora Autêntica. Atribuído a Sin-iéqi-unnínni, a obra atravessou os séculos preservada em tabuinhas de argila descobertas entre 1872 e 2014. Anterior a Homero, a Hesíodo e à Bíblia, conserva até hoje espantosa atualidade.

 

Em brilhante conferência proferida na Academia Mineira de Letras, o professor da UFMG leu diversos trechos do poema, explicando os caminhos que seguiu na tarefa de vertê-lo para o idioma pátrio, o que lhe custou quatro anos de trabalho árduo. Gilgámesh é um príncipe que, depois de sofrer terrivelmente a dor pela perda de seu companheiro Enkidu, sai em busca da imortalidade para, depois de viver muitas aventuras, entender que tal característica não é própria da espécie humana, devendo conformar-se, então, com o fim. A atitude recomendada, então, é a de valorizar o presente.

 

Até onde consegui ponderar, valorizar o presente não significa descuidar do futuro ou deixar de poupar alguns recursos para enfrentar os desafios do amanhã. As atitudes previdentes são bem-vindas e absolutamente necessárias, pois viabilizam a criação da família, o bem-estar dos filhos e, sobretudo, a dignidade na velhice a que se quer tanto chegar. Também no campo da saúde, não é possível gastar tudo o que se tem, sob pena de precisar, depois, de uma energia da qual não se poderá dispor mais. Talvez o segredo esteja no equilíbrio. Não no retraimento, na cautela doentia, no temor de viver. Mas no tempero entre o hoje, o aqui e o agora, por um lado, e os dias que virão, por outro.

 

De minha parte, ganho o dia – mil vezes – quando converso com Carlos e pergunto sobre o álbum de figurinhas da Copa que ele está fazendo ou sobre o que aconteceu na escola. E quando pego Gabriela no colo, para ouvi-la balbuciar: ‘Pa – pai’.