Conheci Francisco Iglésias quando ainda cursava a graduação em Direito, na UFMG, no prédio da Praça Afonso Arinos, entre 89 e 93. Tínhamos amigos em comum: Alexandre Mascarenhas, Evaldo Xavier Gomes, Haroldo Machado Filho. Às vezes jantávamos no restaurante Dona Derna, da família Biadi, em encontro que se estendia por horas, embora não víssemos o tempo passar. Nós, estudantes, nos sentíamos fascinados pela vivacidade de sua inteligência e pelo seu refinado senso de humor. O mestre presenteava os comensais com casos narrados de modo único, em prosa espirituosa e sofisticada. A conversa era livre, solta e sincera, sem cerimônias.  Iglésias não se iludia nem se deixava impressionar pelos títulos acumulados ao longo de sua trajetória, pelos cargos desempenhados ou pelo reconhecimento nacional e internacional à sua carreira.

 

Também apreciava o bom cinema. Percorríamos juntos os poucos metros que separavam o seu apartamento do saudoso Savassi Cineclube, na Rua Levindo Lopes, onde podíamos acompanhar os lançamentos do chamado circuito de arte. Não perdíamos as novidades. Iglesias adorava a obra de Pedro Almodovar, divertindo-se às gargalhadas durante as projeções de seus filmes.

 

Filho de imigrantes espanhóis, transferiu-se ainda jovem de Pirapora, onde nasceu, para a capital, onde estudou no Ginásio Mineiro. Foi da primeira turma de História e Geografia da Universidade de Minas Gerais. Ao lado de Otto Lara Resende, Hélio Pelegrino e Sábato Magaldi, participou da fundação da revista “Edifício”, em 1946. Começou a dar aulas na UFMG em 49, chegando a livre-docente em 55 com a tese “Política econômica do governo provincial mineiro (1835-1889). Publicou mais de dez livros, sobretudo sobre história econômica e história do Brasil.

 

Sua partida, em 99, resultou em perda irreparável para os mineiros. E abriu lacuna imensa na vida de Belo Horizonte. Tenho até hoje saudade de sua presença suave, mansa e afável, e, ao mesmo tempo, forte e incisiva. Dono de erudição monumental, nunca se comportou como o sábio autocentrado, encantado consigo mesmo. Tampouco jamais se conduziu como o intelectual elitista, desses que vivem metidos em gabinete, desligados da realidade. Sintonizado com o seu tempo, era um humanista destemido, de posições claras e corajosas, sempre tomadas em favor do avanço da civilização. Não tergiversava nem fazia concessões. E era, acima de tudo, um professor apaixonado, comprometido com a causa do conhecimento e da educação.

 

Se estivesse vivo, Iglésias estaria completando 95 anos no dia 28 de abril. A boa notícia é o lançamento, ainda nesse ano, de sua biografia. A tarefa foi confiada a um dos melhores intelectuais mineiros, o professor João Antônio de Paula, da Faculdade de Ciências Econômicas da Federal. Pesquisador incansável e rigoroso, ex-aluno de Iglésias, João realizou belíssimo trabalho, para alegria dos que conviveram com o professor e para o benefício das novas gerações, que talvez ainda não conheçam o tamanho de sua contribuição à cultura de Minas.