Chega-me às mãos, com amável dedicatória do autor, o livro “Dom Helvécio, um notável arcebispo” (Folha Artes Gráficas, 2018, 178 páginas), a biografia do segundo Arcebispo de Mariana escrita pelo Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho. Titular da cadeira de número doze da Academia Mineira de Letras, antes ocupada por João Dornas Filho, Alberto Deodato, Tancredo Neves e Olavo Drummond, o Cônego é mineiro de Viçosa. Filósofo e teólogo, foi ordenado padre em 1956.  Professor no Seminário de Mariana por quarenta anos, teve forte atuação na imprensa, dirigindo o jornal “O Arquidiocesano”, daquela cidade, por mais de três décadas. Especializado em História do Brasil, foi eleito membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Incansável, publicou cerca de vinte livros, entre os quais o volume em que retratou Dom Oscar de Oliveira, que assumiu o posto de Dom Helvécio depois de sua morte.

Nascido em 1876 em Olivânia, localidade pertencente ao município de Anchieta, no Espírito Santo, Dom Helvécio ingressou, ainda bem jovem, na ordem salesiana. Pouco tempo depois, foi enviado à Roma, onde concluiu seus estudos na Universidade Gregoriana. Sua ordenação sacerdotal se deu em 1901. Sagrado bispo de São Luís do Maranhão, onde ficou entre 1918 e 1922, viu seu irmão Emanuel também chegar a Bispo nesse ano, indicado pelo Papa Pio XI para assumir a diocese de Goyaz.

Chama-me especial atenção o interesse do biografado pela atividade da comunicação. Quando trabalhou no Mato Grosso, fundou e dirigiu o jornal do mesmo nome, havendo levado do Rio de Janeiro para aquele estado a primeira impressora Marinoni, uma das mais modernas da época. Ali, também fundou a “Revista de Mato Grosso”. Em São Paulo, dirigiu a revista “Santa Cruz”, até 1911. Segundo o Cônego Vidigal, Dom Helvécio estava de acordo com uma frase bastante popular em sua época: “Se o Apóstolo Paulo vivesse hoje, ele seria jornalista”.

Integra o volume uma coleção de imagens de Dom Helvécio, nas mais diferentes circunstâncias, o que permite um entendimento ainda mais preciso de sua personalidade e de seu tempo. De 1931 é o retrato em que ele aparece ao lado de Getúlio Vargas, de dona Darcy e do chanceler José Carlos Macedo Soares, na primeira visita do presidente ao Cardeal Dom Sebastião Leme, no Palácio São Joaquim. A foto do lançamento da pedra fundamental da construção da Usiminas, de 1958, é preciosa: mostra Dom Helvécio ao lado do então Presidente Juscelino Kubitscheck e de outras autoridades, abençoando a fundação da empresa, marco fundamental do desenvolvimento econômico de Minas Gerais.

Escrito em estilo claro e elegante, combinando as habilidades de professor, jornalista e historiador do Cônego Vidigal, o seu mais recente livro é essencial para a compreensão da trajetória da Igreja Católica no estado na primeira metade do século vinte. Afinal, como sucessor do mítico Dom Silvério Gomes Pimenta, que pertenceu à Academia Brasileira de Letras, Dom Helvécio esteve à frente da Arquidiocese Primaz de Minas por quase quatro décadas: entre 1922 e 1960, quando faleceu.