Boa noite a todos e a todas. Cumprimento o distinto público e os conferencistas aqui presentes.

Sejam muito bem-vindos ao Seminário Terra Comum, evento com que o BDMG Cultural tem a honra de contribuir – sobretudo porque permitirá o contato de seu público com um elenco de palestrantes altamente representativo.

O nome do encontro – Terra Comum –  merece uma palavra. Evocada muitas vezes como mãe, a Terra é, acima de tudo, o ambiente em que se vive o drama da história, quase sempre marcado por conflitos e crises em torno do espaço habitável, como se comprova pelo rápido exame, por exemplo, da trajetória brasileira.

Dando-se, em grande parte, pela predação do território e pela exploração nada sustentável de seus bens naturais, pela concentração de terras, pelo recurso à mão de obra escrava e pela atitude hostil em relação aos índios, a colonização portuguesa teve que enfrentar vários movimentos insurrecionais, como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana e a Revolução Pernambucana de 1817.

Se no tempo do Império também não foram poucas as revoltas contra a violência imposta pela Corte (basta citar a Cabanagem, no Pará, ou a Balaiada, no Maranhão) no começo do período republicano elas prosseguiram – algumas vezes até com mais vigor – como mostram alguns fatos selecionados pelos historiadores.

Apenas dois anos depois da Proclamação da República teve lugar a saga de Antonio Vicente Mendes Maciel, o Antonio Conselheiro. Fixando-se na região de Canudos em 1893, ele organizou uma comunidade que seria combatida ferozmente pelas forças do governo central a partir de 1896. Destruído um ano depois, o agrupamento humano que se estabeleceu naquela região da Bahia marcou a memória do Brasil para sempre. Relatada no livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, lançado em 1902, a história também inspirou o escritor peruano Mário Vargas Llosa, que publicou “A guerra do fim do mundo” em 1981, e o brasileiro José J. Veiga, que, oito anos depois, escreveu “A casca da serpente”.

Objeto de análises exaustivas, o episódio de Canudos gerou inúmeras interpretações. Sua complexidade jamais possibilitou conclusões fáceis. Incontestável, no entanto, foi o terrível incômodo causado ao ‘status quo’ pelo modo como aquele espaço foi ocupado e gerido.

O mesmo se pode dizer da comunidade do Caldeirão, localizada no Ceará. Ela foi constituída nas primeiras décadas do século vinte pelo Beato José Lourenço, personagem tão fascinante quanto Conselheiro e, infelizmente, ainda pouquíssimo estudado. Derrotada em 1937, a experiência do Caldeirão virou romance, publicado em 1982 pelo escritor Cláudio Aguiar – fraterno amigo – o mesmo que, em 2014, lançou a impressionante biografia de Francisco Julião Arruda de Paula, o advogado e parlamentar pernambucano que fundou as famosas Ligas Camponesas.

Ampliada pelo surgimento das Ligas e dos Sindicatos Rurais, estes um fenômeno típico dos anos sessenta, a mobilização nacional pela Reforma Agrária resistiu por décadas a toda sorte de adversidades. Adotada pela Comissão Pastoral da Terra, fundada em 1975 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ela é hoje capitaneada, entre outros, pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, criado em 1984, quatro anos antes que a nova Constituição Federal reiterasse o princípio da função social da propriedade.

Na atualidade, a disputa pelo espaço não se dá apenas no campo. A estrutura da propriedade nos centros urbanos também é questionada pelos especialistas e pelos movimentos sociais, sensibilizando ainda os artistas e os escritores.

Às vozes de Graciliano Ramos, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna, cujos textos puseram a nu a realidade fundiária brasileira, unem-se hoje vozes mais recentes, como as de Carolina Maria de Jesus, Luís Ruffato, Conceição Evaristo e Geovani Martins, que expõem a relação cruel entre as cidades brasileiras e seus habitantes.

Função desse Instituto criado há trinta anos, o apoio às Artes e à Cultura se realiza de maneira mais que efetiva no patrocínio dado a esse encontro internacional, que eleva e qualifica o pensamento, o debate e a crítica sobre um dos temas mais caros à contemporaneidade, que é, sem nenhuma dúvida, o do poder sobre o espaço.

A sociedade brasileira só se desenvolverá verdadeiramente por meio da promoção do conhecimento refinado, cosmopolita e corajoso, conectado ao que há de mais criativo e ousado no planeta. Não há mais tempo para cultivar o espírito provinciano ou tacanho, a ignorância ou os preconceitos. As novas gerações têm pressa. Querem viver com dignidade – e em seu próprio país – na plena fruição de seus direitos constitucionais, entre os quais se incluem o acesso à moradia, à saúde e à educação. Tampouco aceitam mais uma postura passiva ou acomodada, que se exime de interferir na realidade. O caminho, pois, é o da reflexão e o da ação –  inteligentes e assertivas. Fundamental, para isso, é abrir a mente e fazer contato com outros pontos de vista, sobretudo os que sejam capazes de reinventar o mundo, abrindo horizontes antes impensáveis, algo que – tenho certeza – o Seminário que começa hoje propiciará a todos.

Muito obrigado!

Rogério Faria Tavares

23 de maio de 2018