Boa noite a todos. Cumprimento o distinto público, os componentes da mesa, o Coral do BDMG e o músico Thiago Delegado, que brilhantemente interpretou o Hino Nacional Brasileiro.

Muito obrigado também pela presença de todos aqueles que militam no campo da cultura, atividade tão exigente.

Sobretudo porque atuar no campo da cultura, hoje, é resistir.

Primeiro contra a tirania, essa mão de ferro que quer calar vozes, mentes e corações.

Depois contra a intolerância, essa triste chaga que consome o tecido social, afastando as pessoas e derrotando o diálogo.

Atuar no campo da cultura é, ainda, resistir contra a ignorância, essa névoa que turva os horizontes amplos e reduz as pessoas à sua dimensão animal, submetendo-as ao nível da sobrevivência mais elementar, imbecilizando-as, tratando-as como massa e não como gente.

Viver do campo da cultura é um ato de fé. Não de fé religiosa, ou espiritual. Mas de fé humanista – ou iluminista, se quiserem –  já que supõe a crença no melhor da humanidade, na sua face luminosa.

Insistir, teimosamente, em trabalhar no campo da cultura é confiar no poder que o ser humano exerceu, em vários momentos de sua história, em favor da criação, do novo, do surpreendente, do belo, do que produz sentido, alegria, emoção.

Comprometer-se com o campo da cultura exige alinhamento de corpo e alma, ossos, músculos, nervos, sangue, células – porque quase nunca é fácil, como mostra a história…

Ao longo de quinhentos e poucos anos, o Brasil assistiu a alguns momentos de avanço e a vários episódios de retrocesso no campo da cultura. Durante os períodos de exceção, tão frequentes – e tão presentes na vida brasileira – os artistas e os intelectuais foram sempre os primeiros a serem censurados e perseguidos. Muitos desapareceram. Outros foram simplesmente exterminados. Houve os que viveram a experiência do exílio em terras estrangeiras. Diversos passaram pelo mesmo alijamento, só que em solo nacional, impedidos de expor sua visão de mundo ou bloqueados em sua condição de criadores.

É preciso recordar, também, os que, com originalidade e bravura, driblaram todas as dificuldades e continuaram produzindo cultura nos momentos mais difíceis – seja com ironia, seja com humor –  armas muitas vezes necessárias para lutar contra as restrições. O seu legado é valioso e comprova a estatura e a fibra típicas do realizador cultural brasileiro, animando as novas gerações a se empenharem por dias melhores.

Outro ponto para reflexão: muito tempo, o Estado brasileiro adotou visão elitista das artes, restringindo a sua circulação aos extratos sociais privilegiados. Não era considerado cultura o que expressava o saber do povo, seu modo de ser e de sentir. Fora da corte, dos salões ilustrados da nobreza e, depois, da burguesia, não havia nada que fosse apreciado como legítimo. Por quanto tempo as manifestações derivadas das matrizes africanas e indígenas foram combatidas ou classificadas como exotismo ou até crime? A capoeira é um exemplo. O samba é outro. O circuito cultural ativado pelo candomblé ou pela umbanda é um terceiro. As expressões culturais das favelas, até hoje, enfrentam serias resistências.

País-continente, beirando os duzentos milhões de habitantes, o Brasil só se afirmará no concerto das nações quando assumir-se – inteiro – na plenitude de sua indispensável diversidade cultural, um de seus tesouros mais preciosos. É ela que o distingue diante dos demais, intrigando e encantando os povos pela sua exuberância e pela sua riqueza. Somos tudo ao mesmo tempo: brancos, negros, índios, mestiços… Nossa música é polifônica. Nossa dança é multissensorial. Nossa prosa é Machado de Assis, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Drummond, Conceição Evaristo e Geovani Martins. Nossa poesia é Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Haroldo e Augusto de Campos, Ana Martins Marques, Ana Elisa Ribeiro… E quem mais chegar.

É a esse impressionante mosaico que está atento o Instituto Cultural do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, inaugurado no ano de 88, dois meses depois que a Constituição Federal estabeleceu a Cultura como Direito de todos. Ciente da magnitude de seu compromisso com o cidadão, o BDMG Cultural persiste, guerreiro, há três décadas, na sua honrosa tarefa de fomentar a arte que brota entre essas montanhas.

Nossos programas são muitos. E permanecem ao longo dos anos, vencendo os desafios do tempo.

A galeria de arte foi aberta em 88 e é ocupada o ano inteiro, por edital público, garantindo a artistas de todas as gerações e de todas as tendências a oportunidade de mostrar o seu trabalho ao público da cidade.

O Coral do BDMG existe há vinte e nove anos. Já gravou dois CDs e dois DVDs. Por onde passa, encanta a audiência. Excursiona por todas as regiões de Minas. Apreciado no país inteiro, também já se apresentou no exterior, levando a boa voz dos mineiros mundo afora, sob a competente regência do Maestro Arnon de Oliveira.

O Prêmio BDMG Instrumental completou, agora, dezoito anos. Na semana passada, no Teatro Sesiminas, os concorrentes impressionaram o júri pelo frescor e pela destreza técnica demonstrada nas performances. Agora, os quatro vencedores se apresentarão no teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil e no Sesc São Paulo, em parceria duradoura com o BDMG Cultural.

Por meio dos programas Jovem Musico e Jovem Instrumentista, o instituto também fortalece sua política de incentivo às novas gerações de instrumentistas, tão expressivas em Minas Gerais.

Ainda no campo da Musica, o BDMG Cultural há quinze anos distribui o Premio Marco Antonio Araujo para o melhor cd de música instrumental produzido no ano anterior e, desde 2018, o Premio Flavio Henrique, destinado ao melhor cd de música de canções.

Já em sua quinta edição, o Premio BDMG Cultural – Fundação Clóvis Salgado de Curtas Metragens de Baixo Orçamento é o único do estado no gênero e, mesmo em sua ainda curta trajetória de vida, já revelou importantes talentos mineiros no âmbito das artes cinematográficas.

Por meio do Trilhas da Cultura, o BDMG Cultural fomenta as artes cênicas – teatro, dança e circo – dando aos grupos aprovados por seu edital a condição de circular entre a capital e o interior do estado para divulgar a sua arte.

Desde 2015, marca presença ainda no campo da produção do pensamento, da crítica e da reflexão, realizando seminários e encontros fundamentais para a elevação da qualidade do debate público no país sobre os temas que mais mobilizam o mundo contemporâneo. Um exemplo disso é o apoio decidido ao Ciclo de Conferencias Mutações, há trinta anos comandado pelo filósofo Adauto Novaes, e cuja casa em Minas, agora, é o BDMG. Ainda hoje, durante todo o dia, o Auditório do Banco ficou lotado por conta da realização de seminário especial sobre Minas Gerais, para o qual o BDMG Cultural reuniu dez importantes intelectuais.

Toda essa intensa atividade só é possível graças a alguns fatores. Nossa equipe é aguerrida e entusiasmada pela Cultura. Agradeço, aqui, em primeiro lugar, a Maria Aparecida Paulino, a Cida, e a Elizabeth Santos, a Beth, as duas funcionárias que estão no BDMG Cultural desde o seu primeiro dia. Estendo o meu abraço aos colegas Marcos Tadeu de Souza, Erico Grossi, Francisco Roberto de Carvalho, Luisa Serrano, Thiago Anício e Larissa Darc, o time com quem tenho a alegria de trabalhar.

Agradeço também a todos os integrantes do Conselho Deliberativo do BDMG Cultural: Luiz Guilherme Piva, Leonardo Parma, João Eduardo de Faria Neto e Ana Patrícia Moura Villa, os dois últimos aqui presentes.

O respaldo da atual direção do Banco ao nosso trabalho é mais claro e firme que nunca. Comandado pelo professor Marco Aurélio Crocco Afonso, o BDMG enxerga na Cultura hoje, mais que nunca, valioso motor do desenvolvimento econômico e fator de inclusão social.

Por tudo isso é que prosseguimos, animados – conscientes da importância do nosso trabalho e dos frutos que ele pode gerar.

O plantio é permanente: vai de janeiro a janeiro. Mas hoje é dia de colheita. E de celebração. Agradeço de novo ao presidente Marco Aurélio Crocco, ao secretário Angelo Oswaldo e ao governador Fernando Pimentel, pela confiança; e aos deputados Marília Campos e Bosco por reconhecerem o valor do Instituto que presido para a vida cultural que pulsa, ativa, em todos os cantos dessas Minas Gerais, de Montes Claros a Aiuruoca, de Diamantina a Poços de Caldas, de Uberlândia a Tiradentes. Que venham os próximos trinta anos!

Muito obrigado!

Rogério Faria Tavares – Diretor-Presidente do BDMG Cultural