Desde a Copa da Rússia, Carlos tem se interessado cada vez mais por futebol. Meses antes do campeonato, começou a fazer o álbum que ficou tão popular entre as crianças da cidade (e popularíssimo entre os pais delas). Por meio dele, meu primogênito descobriu a existência, entre outros, da Coreia do Sul, do Marrocos e da Croácia, desenvolvendo um jeito lúdico e divertido de aprender história e geografia.  Nesse período, gastamos alguns fins de semana nas praças e nos shoppings que organizaram pontos de troca de figurinhas. Houve um sábado em que, na praça da Barragem Santa Lúcia, passamos praticamente toda a manhã, negociando, sem cansar, com a legião de aficionados presentes. Na praça reencontrei até alguns antigos colegas do Loyola, todos empenhados em completar a coleção, meta que também mobilizou Sabrina, dona de extraordinária tenacidade e competência para atingir o objetivo final. Durante o torneio, Carlos acompanhou com atenção todos os jogos do Brasil. Torceu apaixonadamente, sofrendo com a desclassificação da equipe. No final das contas, aprendeu os nomes de alguns atletas e a eles até hoje se refere, quando lembra de algum lance mais marcante. Projetando-se no futuro, já me perguntou quantos anos terá na próxima Copa, onde ela será, etc…

Agora, Carlos pratica o esporte no recreio da escola e na quadra do prédio, e, sempre que pode, reitera sua paixão pelo Atlético, time preferido por todos os seus parentes mais próximos. Fábio Fonseca, seu bisavô materno, presidente do clube por duas vezes nos anos sessenta, ficou conhecido como um dos mais entusiasmados torcedores do Galo. Só vestia preto e branco. Sua memória é reverenciada até hoje por diversos atleticanos. Tenho um amigo que se chama Fábio em sua homenagem. Meu tio José Guerra Pinto Coelho chegou a ter um infarto no estádio, sendo socorrido e levado às pressas para o hospital por Rafael, seu filho médico.

Recentemente, resolvi contribuir para ampliar ainda mais o gosto de Carlos pelo esporte preferido dos brasileiros, decidindo levá-lo ao Mineirão. Não tive medo. Apenas tomei as precauções devidas. Convidado pelo amigo Cadu Doné, da Itatiaia, assisti ao clássico de domingo passado junto com os profissionais da rádio, entre os quais o lendário Alberto Rodrigues, o que tornou as horas em que estive no estádio absolutamente seguras. Carlos adorou a experiência. Do início ao fim. Impressionado com o tamanho da arena, comentou a partida inteira, questionando o juiz (que, segundo ele, deixou de marcar um pênalti…), elogiando e criticando os jogadores. Não parou de falar um minuto. Por sorte, não entendeu nenhum dos lamentáveis gritos de guerra entoados pelas torcidas na ocasião (e que geraram a maior polêmica na imprensa e nas redes sociais no dia seguinte).

Antes assim. É bom que ele consiga preservar, o mais tempo possível, a magia do futebol, e que sua interação com esse universo se dê sempre, pelo menos na infância, pela via da alegria e do prazer, razões pelas quais os pais levam seus filhos aos estádios. Não há graça nenhuma em transformar um jogo em uma guerra, uma diversão em uma batalha sangrenta. Quando o ódio ganha, todo mundo perde.