É tarefa complexa definir o conceito de Cultura. Particularmente, acredito que Cultura são os modos de ser e de viver, de criar e de representar a realidade. Por conta disso, ela acaba se tornando um elemento constitutivo da identidade pessoal e coletiva. Poderosa, fornece a base sobre a qual as diferentes comunidades constroem sua experiência cotidiana e projetam seus sonhos para o futuro. E mais. A Cultura é também produto da História, campo em que é forjada, quase sempre, como resultado de conflitos, disputas e do jogo de forças presente na trajetória da humanidade.

A Arte, por sua vez, é um lugar de manifestação da Cultura. Além de representar a realidade, ela também propõe a criação de novas realidades. A Arte é uma das mais potentes expressões da capacidade humana de relacionar-se com o mundo e de inventar – sem limites, sem regras – outros mundos. Sendo várias as manifestações consideradas artísticas, é possível distingui-las por seu posicionamento em relação à ordem vigente. Há muitas manifestações artísticas que aderem à realidade, sem questioná-la. Pelo contrário: há aquelas que não só concordam com a realidade como reforçam o modo como ela está construída. São manifestações legitimas como as demais – já que não existe regra para o fazer artístico, sua característica essencial. O fazer artístico requer a liberdade plena, exercida em todas as suas dimensões: a liberdade de consciência, a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão…

A Arte que eu, pessoalmente, mais aprecio, não se conforma com a opressão, a intolerância, o ódio ou o preconceito. Gosto da Arte que vem para protestar, contestar, transformar, libertar, e, sobretudo, fazer pensar. Não falo de uma Arte que seja panfletária ou partidária. Mas de uma Arte que seja libertária, humanista. Essa Arte não aceita a restrição e a censura, e está comprometida com a convivência solidária e fraterna entre as pessoas.

Já a Política, para mim, é o fenômeno da vida social a que se atribui a função de compatibilizar e de gerir os diferentes interesses que movem os cidadãos. E isso a Política geralmente executa por meio de instituições públicas, como o Estado. Ao território da Política cabe organizar e governar as diferentes comunidades. A Política, para isso, se utiliza de negociação, do diálogo, do debate e da disputa democrática. Fora da Política, não há salvação, mas barbárie. Por isso é tão perigoso demonizar a Política como um todo, preferindo a Ditadura ou o Autoritarismo, configurações que negam a sua verdadeira importância.

Se a Política é dimensão essencial à vida em sociedade, é natural que a Arte se interesse por ela e que represente o modo como a Política se efetiva nas distintas sociedades. Mais que isso: é natural que a Arte gerada nas diferentes comunidades humanas seja, em grande medida, resultado do que a Política nelas vigente permitiu que ela fosse.

Em sociedades autoritárias, repressivas ou violentas, a Arte florescerá de modo bem diferente do que é observado nas sociedades mais abertas, inclusivas, tolerantes e abertas à diversidade. Ainda que seja possível (e fundamental), mesmo nas sociedades mais fechadas, fazer a chamada Arte da Resistência.