Atuar no campo da cultura, hoje, é resistir. Primeiro contra a tirania, essa mão de ferro que quer calar vozes, mentes e corações. Depois contra a intolerância, essa triste chaga que consome o tecido social, afastando as pessoas e derrotando o diálogo. Atuar no campo da cultura é, ainda, resistir contra a ignorância, essa névoa que turva os horizontes amplos e reduz as pessoas à sua dimensão animal, submetendo-as ao nível da sobrevivência mais elementar, imbecilizando-as, tratando-as como massa e não como gente.

Viver do campo da cultura é um ato de fé. Não de fé religiosa, ou espiritual. Mas de fé humanista – ou iluminista-  já que supõe a crença no melhor da humanidade, na sua face luminosa. Insistir, teimosamente, em trabalhar no campo da cultura é confiar no poder que o ser humano exerceu, em vários momentos de sua história, em favor da criação, do novo, do surpreendente, do belo, do que produz sentido, alegria, emoção. Comprometer-se com o campo da cultura exige alinhamento de corpo e alma, ossos, músculos, nervos, sangue, células – porque quase nunca é fácil, como mostra a história…

Ao longo de quinhentos e poucos anos, o Brasil assistiu a alguns momentos de avanço e a vários episódios de retrocesso no campo da cultura.                      Durante os períodos de exceção, tão frequentes – e tão presentes na vida brasileira – os artistas e os intelectuais eram sempre os primeiros a serem censurados e perseguidos. Muitos desapareceram. Outros foram simplesmente exterminados. Houve os que viveram a experiência do exílio em terras estrangeiras. Diversos passaram pelo mesmo alijamento, só que em solo nacional, impedidos de expor sua visão de mundo ou bloqueados em sua condição de criadores.

É preciso recordar, também, os que, com originalidade e bravura, driblaram todas as dificuldades e continuaram produzindo cultura nos momentos mais difíceis – seja com ironia, seja com humor –  armas muitas vezes necessárias para lutar contra as restrições. O seu legado é valioso e comprova a estatura e a fibra típicas do realizador cultural brasileiro, animando as novas gerações a se empenharem por dias melhores.

Mais um ponto para reflexão: por muito tempo, o Estado brasileiro adotou visão elitista das artes, restringindo a sua circulação aos extratos sociais privilegiados. Não era considerado cultura o que expressava o saber do povo, seu modo de ser e de sentir. Fora da corte, dos salões ilustrados da nobreza e, depois, da burguesia, não havia nada que fosse apreciado como legítimo. Por quanto tempo as manifestações derivadas das matrizes africanas e indígenas foram combatidas ou classificadas como exotismo ou até crime? A capoeira é um exemplo. O samba é outro. O circuito cultural ativado pelo candomblé ou pela umbanda é um terceiro. As expressões culturais das favelas, até hoje, enfrentam serias resistências.

País-continente, beirando os duzentos milhões de habitantes, o Brasil só se afirmará no concerto das nações quando assumir-se – inteiro – na plenitude de sua indispensável diversidade cultural, um de seus tesouros mais preciosos. É ela que o distingue diante dos demais, intrigando e encantando os povos pela sua exuberância e pela sua riqueza.