Acordo cedo. A casa ainda dorme. O silêncio governa o espaço. O relógio marca cinco e meia da manhã. Pé ante pé, saio do quarto e vou me trocar em outro cômodo da casa, para não incomodar Sabrina. Antes, confiro o sono de Carlos e Gabriela, que flui confortável, aconchegado entre bonecos e paninhos. Animado pela noite bem dormida, planejo um café quente e um sanduíche de pão com queijo antes de começar a andar pela Praça da Assembleia. A padaria já começa a se movimentar. A um canto, a televisão apresenta imagens que surgem e desaparecem rapidamente, desafiando o entendimento dos telespectadores. Repórteres informam sobre as condições do trânsito e do tempo. Será que vai chover? Olho para o céu, curioso, como se pudesse adivinhar os humores da meteorologia. Arrisco um palpite: chuva fina ao longo do dia, podendo evoluir para uma terrível tempestade, no decorrer das próximas semanas.

Durante a caminhada, passo pela escultura de Carlos Chagas, grande cientista, o mineiro de Oliveira que tanto estudou a malária e que também conseguiu identificar e descrever completamente a doença que acabou levando o seu nome. Na Rua Rodrigues Caldas, juntos, vejo Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e Teotônio Vilela, o menestrel das Alagoas, imortalizado pela canção de Milton Nascimento e a interpretação de Fafá de Belém. Minha memória ativa lembranças do período em que o Brasil tentava se redemocratizar, após duas décadas de regime de exceção. Relembro o gesto do deputado paulista, levantando entre as mãos o exemplar da Constituição Federal finalmente promulgada em 5 de outubro de 1988, há trinta anos. São do discurso que proferiu nessa data algumas frases de grande apelo: “A sociedade é Rubens Paiva. E não os facínoras que o mataram. Tenho ódio à ditadura. Ódio e nojo”.  A evocação do nome de Rubens, pai de Marcelo Rubens Paiva, autor do premiado “Feliz Ano Velho”, também me leva à figura da mãe do escritor, Eunice, personagem principal de “Ainda estou aqui”, lançado pelo filho em 2015. Como num filme cujas cenas se sucedem naturalmente, uma em consequência da outra, rememoro meus anos como professor de Direito Constitucional, quando, honrado, partilhava com os alunos os conhecimentos adquiridos em minha formação acadêmica, em meus estudos e reflexões. E enriquecidos pela leitura da obra de juristas como José Afonso da Silva, mineiro de Pompéu, professor livre docente da USP, presidente e fundador da Associação Brasileira dos Constitucionalistas Democratas.

Entre quarteirões, pego-me lendo as manchetes estampadas nas bancas de jornais. Algumas mostram o reingresso de milhares de pessoas ao mapa da fome. Outras informam sobre a volta do sarampo e da poliomielite, depois de décadas sumidas do cotidiano dos brasileiros. Por um segundo, a armadilha do desanimo ameaça invadir-me, sorrateira como sempre. Já na esquina de onde moro, vejo um grupo de jovens – a maior parte formada por mulheres e negros – divulgando um evento a favor da educação pública, laica e de qualidade (como queriam Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro). Minha disposição se renova. É possível seguir em frente, de cabeça erguida e o olhar posto na linha do horizonte, fazendo a minha parte.