Dona Zélia tocou campainha às seis e meia da manhã. Dormíamos. Acordei assustado. Num impulso, levantei da cama e dirigi-me à sala. Pelo olho mágico, reconheci as feições marcadas pelo tempo: as olheiras fundas, o cenho franzido, a pele já enrugada e curtida pelo sol. Por um segundo, hesitei em abrir a porta. Por que dona Zélia viria à nossa casa num domingo, e logo tão cedo? Sem resposta à minha pergunta – e movido por estranha intuição – resolvi recebê-la. Ela pareceu aliviada com o meu gesto. “Posso entrar?”, indagou. “Você vai entender por que apareci num dia como hoje, e a essa hora. Sua mãe já acordou?” “Não, dona Zélia”, respondi, ainda sem entender muita coisa. “Papai e ela chegaram tarde em casa ontem. Foram ao cinema e depois jantaram juntos. Talvez acordem mais tarde hoje”. “Melhor assim”, comentou.

A mulher assentou-se no sofá em que costumava costurar, horas a fio, ao lado de minha mãe – sua melhor amiga –  as duas disciplinadamente em silencio, absolutamente comprometidas com a tarefa posta entre as mãos. Carregava alguns embrulhos que logo abrigou sobre o assoalho de tábua corrida. Pediu café quente, e forte, bem forte. “Ajuda a esquentar a voz”. Na cozinha, preparei a bebida conforme o seu gosto. Apesar da movimentação, meus pais e meu irmão continuavam dormindo. Voltei segurando a xícara. Num pequeno prato, ofereci biscoitos e algumas fatias de seu queijo predileto. “Ainda não compramos pão hoje, dona Zélia”. Ela não se importou. Com um sorriso mudo nos olhos, começou a comer. Assentei-me à sua frente, ainda em pijamas, o corpo reclinado em sua direção, mal contendo a curiosidade. Dona Zélia não estava com pressa. Parecia preparar-se para dizer algo importante, ou para contar um segredo guardado há décadas. Sempre fora solene, mas naquela manhã estava mais, como se estivesse vivendo um momento histórico.

“Eu vim devolver tudo isso. Eu não suporto mais ver essas coisas na minha casa, todos os dias”. Enquanto terminava a frase, dona Zélia começou a abrir os volumes que havia trazido consigo. Deles, para minha perplexidade, começaram a sair dezenas de objetos. Mencionarei apenas os que me chamaram mais atenção: vi dois relógios de pulso, três gargantilhas, espelhinhos para maquiagem, alguns batons, vidros de perfume, artigos de decoração. Ainda demorei alguns segundos para entender do que se tratava, quando de repente percebi que me eram todos familiares. “Eu estou cheia de coragem hoje, meu filho. Rezei muito e pedi a Deus para me ajudar a fazer o que eu estou fazendo”. Perplexo, não conseguia articular palavra. Os pensamentos se sucediam em minha cabeça, numa velocidade incrível, como num filme de ação. Entretido, talvez até hipnotizado, tinha olhos apenas para as inúmeras cenas representativas da mais antiga e leal amizade mantida por minha mãe, ao longo de sua vida. Dona Zélia era praticamente de nossa família. Agora, ali na minha frente, assemelhava-se a um outro personagem, ainda indefinível. Curiosamente, a confissão não me provocou raiva nem indignação. Para minha surpresa, o sentimento que predominou foi de pena ou compaixão, não sei dizer muito bem. De novo de pé, dona Zélia despediu-se de mim dizendo, apressada: “Diga à sua mãe que devolvi tudo, não falta nada. Mas peça a ela somente uma coisa: que não me procure mais. Não tenho coragem de vê-la de novo”.