Depois de fazer o álbum de figurinhas da Copa da Rússia, como comentei nessa coluna na semana passada, meu filho Carlos agora quer fazer um outro, o da Copa do Brasil. Não sei se conservará tal hábito, se ele passará com o tempo ou se se expandirá para outras modalidades de coleção. O fato é que, por conta disso, o tema surgiu com toda força em minha mente, fazendo-me recordar de alguns colecionadores famosos.

O editor Pedro Correa do Lago, filho do Embaixador Antônio e neto de Oswaldo Aranha, começou sua coleção de manuscritos por volta dos treze anos. Perguntei o que o motivou. Pedro me disse que o irmão já colecionava selos e que ele também queria juntar alguma coisa, para se entreter.  Sua mãe, então, lhe sugeriu que fizesse algo diferente. De posse do famoso livro “Who’s who”, e bastante decidido, enviou cartas para várias celebridades pedindo-lhes a assinatura ou um pequeno texto redigido à mão. Com senso de humor, contou que voltava correndo da escola para checar se as cartas enviadas por Kruschev ou Golda Meir já haviam chegado. Várias das personalidades abordadas por Pedro responderam ao seu chamado. Ao longo dos anos, ele formou um conjunto precioso, de importância histórica, exposto várias vezes em museus e em centros culturais, do Brasil e do exterior. Até hoje ele continua ativo, sempre buscando documentos que possam enriquecer o seu acervo. São de Pedro, por exemplo, os originais de “A Torre de Babel”, conto do escritor argentino Jorge Luis Borges.

A poeta Yeda Prates Bernis, da Academia Mineira de Letras, possui belíssima coleção de bonecas, vindas de todas as partes do planeta para receberem seus cuidados, no aconchego do seu lar. Rico painel das diversas culturas espalhadas pelo globo, as bonecas são um retrato revelador da estética de sua época e dos costumes nela vigentes.

Se há coleções cuja relevância é inegável, e que ajudam, inclusive, na compreensão do mundo em que vivemos, existem outras que são simplesmente inexplicáveis. Conheci uma senhora que colecionava os cacos de vidro dos copos que se quebravam em sua casa, como se os acidentes domésticos do cotidiano lhe permitissem reunir as peças de um quebra-cabeças que jamais seria montado. De gosto mais duvidoso, um amigo até hoje guarda as unhas que corta de seus dedos da mão. Se apara as garras, por que razão as esconde, já inutilizadas, em sacos plásticos devidamente lacrados e depositados nas gavetas de seu escritório? Incompreensível.

Bizarro, mesmo, era o hábito de uma conhecida da família, colecionadora de tristezas. Perfeccionista, manteve, por décadas, cadernos de capa dura sempre iniciados com o terrível título de “Coisas que me magoaram”. Numerados e descritos com riqueza de detalhes, os desconfortos pelos quais passou ficavam para sempre registrados nos tais volumes, para que não corressem o risco do esquecimento. Não cheguei a fazer a ela tal pergunta, mas sempre desconfiei de que sua meta era inscrever seus cadernos no livro Guinness dos recordes…