Corro os olhos pela sala do apartamento. Uma das paredes parece de papel, completamente tomada por livros. Acoplada à imensa estante, uma escada me ajuda a alcançar os que estão na prateleira mais próxima ao teto. O conjunto parece ter vida própria, já que cresce misteriosamente, sob os protestos de Sabrina e de Sandra. Sorrateiro, faço como Sérgio Buarque de Holanda, que entrava em casa com livros novos escondidos sob o paletó (e pelos fundos) para evitar as repreensões de dona Maria Amélia. Compro as novidades sempre discretamente e as incorporo ao seu ninho quando não tem ninguém olhando… Em pilhas desordenadas, meus livros revelam um pouco do que eu sou e dos vários interesses que disputam a minha atenção: prosa de ficção, história, jornalismo. Lado a lado, os autores que amo moram comigo. Íntimos, testemunham o meu dia a dia na sua plenitude, com seus momentos felizes e suas horas difíceis. Machado, Graciliano, Jorge Amado, Nava e Darcy Ribeiro com certeza se divertem com as travessuras das crianças e se entretêm com as conversas dos adultos.

Peco sempre pelo excesso. Todo dia a família cresce. O pai dessa prole sem fim é irresponsável (ou compulsivo, já que não consegue parar…) O consolo é saber que não sou o único. Entre os vários amigos que portam a mesma patologia, há os que querem ser cremados agarrados a alguns de seus volumes. Dizem: levarei comigo os que fazem parte de meu corpo (ouvi esse relato hoje pela manhã, de uma brilhante professora de francês). Há os que assumidamente não conseguem se desfazer de nenhum, nem daqueles que jamais abriram. E há, ainda, os que se dizem desapegados, embora raramente façam algo que comprove tal qualidade. Conferindo a memória, até que já exercitei a arte da doação. E foi bom. Sinto-me bem quando vou à Biblioteca Pública Estadual, na Praça da Liberdade, e nela deixo aquilo que já me serviu e alegrou por um tempo, e que agora pode ser útil a outros, sobretudo aos que moram nas cidades menores, em que o acesso aos livros é mais complicado. Outra experiência positiva foi a de doar livros para a Biblioteca Central da UFMG, que é excelente e primorosamente organizada.

O fato é que meus filhos já se acostumaram a viver nesse ambiente. Vez por outra tiram um exemplar da estante e começam a folheá-lo, despretensiosamente (só agora Carlos chegou à idade da alfabetização e Gabriela é ainda um bebê…) Cultivo a ideia de que esse é um hábito bom. Acredito que talvez o manuseio constante dos livros possa convidar à leitura. Creio, no entanto, que o exemplo dos mais velhos é o fator preponderante para formar na criança o gosto pelas palavras impressas. Das inúmeras lembranças que guardo de meu pai, várias são cenas em que ele aparece colado a seus autores mais queridos, como Montaigne, Teilhard de Chardin, Alexandre Herculano, Eça de Queiroz e Josué Montello. A relação com os livros é sobretudo afetiva.

É por isso que gosto de presentear os amigos com livros. Vou à livraria seduzido pela possibilidade de oferecer uma boa história a alguém de quem gosto. Afinal, o que é a vida da gente senão uma história a ser contada?