Dias depois da eliminação do Brasil pela Bélgica, no Mundial da Rússia, encontrei meu filho de seis anos e meio completamente absorvido pela televisão, em horário improvável, em seu quarto de brinquedo (onde fica o único aparelho da casa). Com uma expressão de angústia no rosto, mantinha os olhos vidrados na tela, quase sem piscar. Assistindo a uma reapresentação da partida fatal, insistia em me dizer que os brasileiros haviam ganhado nova chance e estavam, de novo, na luta pelo hexa. Mesmo depois de informado sobre o que estava vendo, permaneceu diante da tevê até o último minuto. Conferiu novamente, lance por lance, a derrota do time de seu país. Talvez precisasse da confirmação da perda ou, simplesmente, de compreender melhor como ela havia se dado. Para aceitá-la e, na sequência, quem sabe, incorporá-la à sua memória de modo mais suave. Afinal, por meses, cultivou a esperança do título, não só colecionando as figurinhas do álbum da Copa, como também trajando, em várias ocasiões, o uniforme da seleção, da camisa de Neymar Junior às chuteiras, presenteadas por Sabrina. Tomara que tudo isso siga com ele como uma recordação feliz, ou pelo menos curiosa, de sua infância.

Assim como Carlos, houve momentos (não só quando criança, depois também) em que, para seguir adiante, precisei rever, na mente, alguns filmes cujos desfechos foram indesejados ou desagradáveis. Ninguém gosta de frustrações. Mas elas fazem parte da vida. São fatos. Nem sempre o resultado do jogo é o que esperamos, ainda que tenhamos feito a nossa parte. Por mais que tenhamos investido o melhor das nossas energias num projeto, num empreendimento…  E não vale a pena brigar com os fatos. O importante é levantar a cabeça, tomar um bom fôlego e ir em frente, com entusiasmo, na certeza de que nada é como um dia após o outro. E de que nada é mais inteligente que fazer, do limão, uma limonada, com o perdão do lugar-comum.

Conheço pessoas que se tornaram especialistas em limonada. São guerreiras, não entregam os pontos. Tenazes, acabam colhendo os frutos de sua persistência e determinação, depois de superarem os desafios postos à sua frente, mesmos os mais duros, como a rejeição dos seus semelhantes a alguma de suas características: condição social ou de saúde, etnia, aparência física, idade, orientação sexual… Alguém já escreveu: o vencedor é aquele que não desistiu. Poderia citar vários exemplos aqui. Não seria justo. Excluiria centenas de outros.

Sobre o tema, há ainda outra sutileza que muita gente não enxerga, no calor da hora: o que parece uma derrota pode ser, na verdade, uma vitória. E vice- versa. Já vi muita gente comemorar o que, depois de algum tempo, se mostrou ser um azar tremendo, ou um terrível infortúnio. Às vezes, só depois de muito tempo é possível entender o sentido de alguns acontecimentos. Em alguns casos, apenas na velhice é que o significado de certos episódios se revela com mais clareza. Afinal, essa é a matéria de que a vida é feita. Estamos todos mergulhados num mistério profundo, em que as perguntas são muitas, e as respostas… muito poucas.