Depois de trinta e cinco anos sem nome, sendo conhecido apenas como ‘anexo’, o prédio que dá sede ao BDMG Cultural, à Rua Bernardo Guimarães, recebeu ontem, publicamente, o nome do Professor Darcy Ribeiro, nascido em Montes Claros, em 1922. Órfão de pai aos três anos, Darcy era filho da Mestra Fininha, exemplar professora da cidade. Assim como ela, dedicou a vida à Educação, não sem antes, na qualidade de antropólogo, contribuir para com a causa dos índios brasileiros.

Após residir por alguns anos em Belo Horizonte, como estudante da Faculdade de Medicina, Darcy resolveu interromper o curso, seguindo para São Paulo afim de estudar Ciências Sociais. Formado pela Escola de Sociologia e Política da capital paulista, começou a trabalhar no Serviço Nacional de Proteção ao Índio, onde conheceu o Marechal Cândido Rondon, a quem chamava de o “Anchieta de farda’. De Rondon, o mineiro herdou a grande paixão e o enorme respeito pelos povos nativos do Brasil. Viveu entre eles por mais de dez anos, pesquisando principalmente sobre algumas tribos do Pantanal e da Amazônia. Sempre pioneiro, foi o fundador do Museu do Índio, no Rio de Janeiro, em 1953, iniciativa reconhecida internacionalmente. O Parque Nacional do Xingu também encontrou em Darcy um de seus principais idealizadores, ao lado dos irmãos Cláudio e Orlando Villas-Bôas. Seus escritos a respeito dos índios não se limitaram aos estudos antropológicos ou aos ensaios. Darcy também escreveu um importante romance inspirado pela temática: “Maíra”, de 1976, considerado por Antônio Cândido de Mello e Souza um dos mais importantes livros da literatura brasileira. Também se deveu, pois, à sua faceta de romancista a sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Deolindo Couto.

A presença de Darcy Ribeiro no campo da Educação se ampliou quando ele uniu seus esforços aos do educador baiano Anísio Teixeira, um dos mais destacados militantes do Movimento pela Escola Nova, que defendia o ensino público, gratuito, laico e obrigatório, e cuja pedagogia privilegiava o desenvolvimento do intelecto e da capacidade de julgamento, em detrimento das habilidades de memorização de conteúdos. A mensagem de Anísio imprimiu forte marca na conduta do mineiro, que, pouco tempo depois, viria a fundar a Universidade de Brasília, a UnB, cujo campus, hoje, leva o seu nome (assim como o da Unimontes, em sua terra natal). Ainda no gabinete Hermes Lima, durante a curta vigência do Sistema Parlamentarista no Brasil, Darcy ocupou, por alguns meses, o Ministério da Educação. Em seguida, foi chefe do Gabinete Civil do Presidente João Goulart. No Rio de Janeiro, como vice-governador e secretário da Cultura, Darcy reiterou seu apreço pela Educação, seja na fundação da Universidade do Norte Fluminense, instalada em Campos dos Goytacases, seja na concepção dos famosos Cieps, os Centros Integrados de Educação Pública, que ofereciam educação em tempo integral a seus alunos.

Morto em 1997, em decorrência de longa enfermidade (da qual bravamente fugiu enquanto pôde), Darcy agora tem seu nome reativado com força, na fachada do BDMG Cultural. Tomara que esse gesto simbólico ajude as novas gerações a se interessarem por sua obra, que é vigorosa, bela, e, sobretudo, libertária.