Em “Andorinha, Andorinha” (Editora Global, 2015, 509 páginas), o leitor se deleita com o Manuel Bandeira cronista. Se, passados cinqüenta anos de seu falecimento, o pernambucano continua a encantar o público pela beleza de sua poesia, não é menor o prazer de acompanhá-lo nos textos que publicou em jornais. O tom intimista permitido pelo gênero dá a todos a oportunidade de conhecer a desafiadora relação do poeta com a tuberculose. Em “Minha adolescência”, ele escreve: “A história de minha adolescência é a história da minha doença. Adoeci aos dezoito anos quando estava fazendo o curso de engenheiro-arquiteto da Escola Politécnica de São Paulo. A moléstia não me chegou sorrateiramente, como costuma fazer, com emagrecimento, febrinha, um pouco de tosse, não: caiu sobre mim de supetão e com toda a violência, como uma machadada de Brucutu. Durante meses, fiquei entre a vida e a morte. Tive de abandonar para sempre os estudos. Como consegui com os anos levantar-me desse abismo de padecimentos e tristezas é coisa que me parece a mim e aos que me conheceram um verdadeiro milagre.”

Outro texto precioso é “Confidências a Edmundo Lys”, em que Bandeira conta o começo de sua vida literária (‘foi precisamente para me dar a ilusão de ‘não existir em vão’ que comecei a publicar meus versos’), com a publicação de seu primeiro livro, “A cinza das horas”, de 1917. Na mesma crônica, revela como escreveu o célebre poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, incluído em “Libertinagem”, de 1930. Forçado a abandonar o curso de Arquitetura, quando sonhava em ‘construir casas, remodelar cidades, encher o Rio ou o Recife de edifícios bonitos como Ramos de Azevedo fizera em São Paulo’, rememora: “Desforrei-me das minhas arquiteturas malogradas reconstruindo uma cidade da Pérsia Antiga – Pasárgada. Quando na classe de grego traduzíamos a Ciropédia de Xenofonte, fiquei encantado com esse nome de uma cidadezinha construída por Ciro, o Antigo, nas montanhas do sul da Pérsia para lá passar os verões. Trinta anos depois, quando eu morava na rua do Curvelo, num dia de profundo abatimento e cafard, de repente me salta do subconsciente como um grito de evasão este verso: ‘Vou-me embora pra Pasárgada!’ E atrás dele vieram os outros”.

Além das deliciosas histórias sobre a Academia Brasileira de Letras, em que ocupou a cadeira de número vinte e quatro, o livro ainda inclui muito do que Bandeira escreveu sobre Artes Plásticas e sobre Música, confirmando sua posição como refinado observador da cena cultural do Rio de Janeiro do seu tempo. Uma das crônicas é especialmente saborosa. Datada de 13 de setembro de 1928, ganhou o titulo “Um rapaz de 23 anos” e apresenta ao leitor um artista que Bandeira considerava promissor: “Cândido Portinari é um paulista de 23 anos, que possui excelentes dons de retratista. A sua técnica é larga e incisiva. Apanha bem a semelhança e o caráter dos modelos.”