De suas férias na Bahia, Carlos trouxe várias fitinhas do Senhor do Bonfim (ou do Senhor Bonfim, como ele fala) para distribuir entre os colegas da escola. Animado, organizou a lista dos amigos a serem presenteados, escolhendo, para cada um, a cor mais apropriada. Expliquei a ele o ritual, fazendo alusão aos desejos que se podem formular na hora de dar os famosos três nós no adereço, que tanto pode adornar o tornozelo quanto o pulso. Sublinhei a necessidade de se manter os pedidos em segredo absoluto até o rompimento das fitinhas, pelo desgaste natural do tempo. Ele me ouviu, atento, para depois fazer a pergunta fundamental, entre intrigado e incrédulo: “Mas eu posso pedir qualquer coisa?” Aventurei-me, ainda que timidamente, a enveredar pelo tema da fé. Disse da importância de acreditar com firmeza na realização do pedido, ressaltando que tal atitude é sempre a melhor quando se quer conquistar algo.

“Posso pedir até a paz no mundo?”, foi a indagação seguinte, que, por pouco, não me deixou sem reação. “Bem, isso não é assim tão simples”- foi o que consegui dizer –  lutando para afastar da mente as imagens balofas de Donald Trump e de Kim Jong-un, que nessa hora apareceram com todo o vigor. Esperto, meu filho de seis anos não insistiu no assunto, percebendo logo que seria mais prático concentrar-se em pedidos menos complexos, como, talvez, uma nova bola ou outro par de luvas de goleiro, mas a questão continuou me interessando e ocupando os meus pensamentos. Aos poucos, algumas primeiras idéias afloraram, animando-me a voltar ao assunto com Carlos, oportunamente.

Agora acredito, sim, que ele pode pedir a paz no mundo. E com a ajuda de sua fitinha do Senhor do Bonfim. Por que não? Seria irresponsabilidade demais deixar matéria tão importante para a humanidade exclusivamente nas mãos de seus representantes políticos, muitos dos quais movidos apenas por interesses pessoais, sem qualquer compromisso com o destino coletivo. Os grandes temas pertinentes à paz (desarmamento nuclear, preservação do meio ambiente, respeito aos direitos humanos) só avançaram, ao longo da história, por pressão da opinião pública internacional, formada por… cidadãos! Por pessoas comuns como donas de casa, estudantes, profissionais liberais e pequenos empreendedores, que se mobilizaram em movimentos e interferiram, com suas ações, no campo das decisões mundiais.

Finalmente, direi a Carlos que a paz no mundo não se refere apenas  ao que parece grandioso. Ela tem a ver com o cotidiano mais simples e mais imediato, como o modo de portar-se no trânsito ou de conviver com vizinhos e colegas de trabalho. Afinal, sua maior inimiga, a violência, também está presente no dia a dia, permeando, maliciosa (e muitas vezes, silenciosa), as relações sociais, instilando o ódio, a intolerância, o preconceito…